sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Avenida sem fim






A expectativa é muito grande. Todos querem saber qual vai ser o final da Carminha, da Nina e do tal do Tufão. O povo está tão reunido para esse grand finale que até se fala em um apagão no país por causa de uma coisa chamada rampa de carga. Os televisores estarão ligados, a palavra “fim” irá aparecer no final da novela e todos retornarão as suas atividades comuns podendo sobrecarregar as linhas de transmissão.
Enquanto existem pessoas acessando os sites de entretenimento para procurar os spoilers do último capítulo dessa novela chata, alienadora e sem sal algum, existe uma notícia que no mínimo os cidadãos deveriam estar ansiando assim como anseiam o final desse lixo da teledramaturgia. A câmara dos deputados aprovou a destinação de dez por cento do PIB para a educação. O projeto segue em votação para o senado.
No facebook alguém postou “E o que temos pra hoje? Assistir o capítulo final de Avenida Brasil e depois ir nanar...” Então alguém comentou: “ Hoje o Brasil para!” Palmas. Esse tipo de cidadão fala como se novela fosse sua única opção do dia. Já o comentário da outra foi tão verdadeiro e monstruoso que se tomasse forma, eu me esconderia em meu quarto e me cobriria de medo. Juro. É triste saber que o Brasil para com o desfecho de uma história tão legal quanto ter que acordar cedo no domingo.
E sabe o que mais? Na hora de reclamar de hospital lotado, falta de segurança, escolas ruins, todo mundo abre a boca pra falar. Mas só fala (e compartilha imagens no facebook). Esquecem de olhar para si mesmos e analisar a figura de um telespectador alimentando sua ignorância a partir do momento que a morte de um personagem fictício passa a ser mais importante do que a morte de uma criança por fome.
Alguns cidadãos infelizmente não sabem nem o significado de PIB, por outro lado conhecem todo o enredo das novelas, conseguem contá-lo da melhor forma possível, fazem referências aos acontecimentos principais com um sensacionalismo exacerbante e ainda dão sua opinião sobre os fatos. Tente perguntar alguma coisa sobre a educação no país. As respostas serão esplêndidas! “A educação é ruim...”, “ O governo rouba dinheiro da educação, aí já viu né?” “ A educação no Brasil tá péssima...”, “ blá blá blá”, “as crianças não andam aprendendo nada”, “ e educação blá blá, blá.” É sempre a mesma conversinha de indignação estatizada, sem conteúdo ou informações relevantes e muito menos propostas que reajam contra a insanidade política tacada em nossas caras.
Eu sei que essa notícia sobre os dez por cento do PIB destinados à educação não é digna de aplausos, ainda. Muito tem que melhorar. E sei também que há muita polêmica sobre desvio de dinheiro. A gente sabe de tudo isso... Mas o caso é: Será que se a população desse mais atenção a esse fato, ansiassem pelo final feliz do PIB aplicado a educação e causassem uma reviravolta no país pressionando o governo a fazer melhor uso do dinheiro, a novela dos problemas sociais não teria seu enredo alterado? Nós somos a audiência, nós somos os espectadores! Sem nos manifestar, como pretendemos que o governo saiba que queremos mudar o enredo dessa novela além de pressionar essa história a fim de que se tenha um desfecho satisfatório? 
O conhecimento pode transformar um país, um continente, um mundo. O conhecimento é uma avenida sem fim, diferente dessa aí que termina hoje e conclui com êxito o seu objetivo de prender a atenção de milhares de brasileiros famintos por ignorância.

Luís Fellipe Alves



4 comentários:

  1. Hugo:

    Esse é um país que infelizmente pára pra ver uma novela cheia de ódio e violência. Geralmente as pessoas ficam estarrecidas quando se deparam com alguém que não assiste novela. Eu não sabia que a coisa estava assim... Não assisto novela – só falo isso. Mas acho traumatizante, um país com tanta violência gratuita, que ainda faça trabalhos para aumentar as estatísticas da violência, da corrupção, da deseducação. É uma escola. Ótima escola. Porém, a televisão dá o que o povo quer e não o que o povo precisa; ibope dá grana mas não dá educação. E dinheiro pra muitos é tudo. E assim continuaremos. Li, hoje, que a próxima 'novelita' vai ser mais violenta!! A protagonista será pior do que essa tal Carminha! Então, salve o Brasil! E salve-se quem puder.

    Você falou tudo que penso e adorei!
    Ótima crônica!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tais, realmente elas ficam estarrecidas. Ouse dar uma pequena palavrinha do que você acha... Pelo menos comigo foi um horror. Fui alvejado por palavras!
      Concordo com você, o ibope dá grana e não dá educação. A televisão é um meio de comunicação muito importante e inovador. Novinha no mundo. Tem pouco mais que sessenta anos no Brasil e já vive imersa num lixo de programação... Não sabia muito sobre a nova novela, ouvi dizer algo sobre tráfico de garotas. Por aí, associando ao que você disse, já sabemos mais ou menos como a violência vai nascer nesse enredo. Triste, mas tem quem alimente, então eles não vão parar!

      Muito obrigado Tais! É muito importante pra mim seu comentário e é ótimo ter por perto uma pessoa que tenha a mesma atitude que eu diante de uma novela! rs
      Abraço!

      Excluir
  2. Olá Hugo!

    Agradeço o carinho de seu comentário em meu blog, percebo que falamos sobre o mesmo desagradável assunto: o tão aguardado fim da novela! Impressionante como uma nação se rende a uma trama que em nada acrescenta ao seu dia-a-dia, mas permanece cega e apática diante da novela dos problemas sociais, que afeta diretamente a cada cidadão. Não entendo o fascínio das novelas sobre a população, especialmente dessa novela, tão carregada de cenas de vingança, de ódio declarado, de mau caratismo e dissimulação. E a substituta parece vir a altura... no ponto para a alienação! Quanto a mim, dispenso para novelas o mesmo tratamento que dou aos vícios em geral: não bebo, não fumo, não falo palavrão. Não assisto nenhum capítulo para não dar a minha mente a oportunidade de acostumar com o medíocre a ponto de julgá-lo aceitável.

    Seu texto reflete sua postura firme em relação as causas que realmente importam nesta vida, e eu gostei muito disso. Parabéns! Um abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Suzy,
      Eu é que agradeço pelo seu carinho em visitar o meu blog!
      Ah, esse mal que ultrapassa as fronteiras do país! A medida que a TV evoluiu, depois de ter seu início aqui no Brasil pela TV Tupi fundada pelo senhor Chateubriand, o entretenimento televiso cresceu da mesma maneira. As novelas mais antigas não demoraram a surgir. Eles educaram a sociedade desde então. Era muito atrativo! Televisão era uma novidade que dava vida às novelas de rádio e criava uma rotina de entretenimento muito interessante! Os enredos das novelas eram melhores, sim. Eu, por exemplo, assisti à reprise de A viagem em Vale a pena ver de novo. Eu fiquei encantado com aquela novela dos anos 80. Só que depois de crescido e já com a cabeça mais crítica eu não tive mais essa cultura novelística que enquanto criança nós acabamos tendo se nossos pais permitirem... Eu me libertei desse mal! rsrs
      Por mais que os enredos tenham piorado, a cultura noveleira não acabou. O tempo deu aos enredos a liberdade de explorar campos que na minha opinião são extremamente irrisórios!
      Duvidaria muito que um dia surgisse uma novela que girasse em torno da sociologia, por exemplo. Da literatura. Da língua. Da filosofia. Que canal arriscaria passar conhecimentos a ponto de fazer uma população inteira começar a pensar? (Isso se as pessoas não ignorarem a tal novela antes, né! Falou em pensar, todos correm!)
      É exatamente esse o ponto, não podemos achá-las aceitáveis. Dessa forma estaríamos fazendo com nossa mente agisse da mesma forma pra outros assuntos!

      Muito obrigado, viu Suzy? Espero vê-la mais por aqui.
      Abraço!

      Excluir


Obrigado!




Ir para o Topo