domingo, 7 de abril de 2013

Outros tempos vistos hoje



Nunca tive dificuldade em fazer amigos. Embora lá pelos meus onze anos eu tivesse certo problema em formar grupos na escola, isso nunca foi um problemão. Eu apenas não interagia. Pouco a pouco fui mudando e até o final do ensino fundamental eu já havia feito alguns amigos, que hoje desapareceram. Depois de formados e sumidos, tive receio de que a vida fosse feita desses ciclos. E cheguei a acreditar que todas as amizades fossem efêmeras. Mas foi no ensino médio que conheci aquela que seria uma amizade cheia de provas.
Em uma madrugada de sábado para domingo, já mais velhos e maduros, nos conduzíamos de carro pelas ruas da cidade. Ela na direção e eu seu co-piloto, conversávamos sobre aqueles tempos em que nos conhecemos. Migramos para um momento de nossas vidas em que tudo parecia diferente, inclusive a mentalidade. Lá no comecinho do ensino médio, quando meu cabelo era grandíssimo, eu era magrelo e ela era apaixonada por Avril Lavigne. Não trabalhávamos, éramos praticamente crianças e queríamos que tudo fosse mais fácil. Não podíamos chegar em casa depois da meia noite, até porque o sistema de transporte urbano parava a meia noite e só apareciam pelas ruas os famosos "corujões" que andavam milhares de quilômetros e passavam a cada duas horas! Mal podíamos dar uma voltinha no shopping, pois sempre havia algum de nós sem dinheiro... Queríamos celulares novos, queríamos aquele computador legal, mas a nota em matemática estava deixando a desejar. Ainda mais: o celular sempre era caro. Quase impossível, não? Pois é.
 No intervalo da escola, compartilhávamos moedinhas. Nas situações mais cabulosas, como um dia que quase conseguímos matar aula, nós nos apoiávamos. Na hora de discutir, sabíamos virar a cara. Mas o coração era mole. Logo estávamos nos falando de novo e o companheirismo renascia. Quando finalmente conseguíamos fazer um passeio legal, era fantástico. Aproveitávamos cada gotinha do nosso tempo e desfrutávamos ao máximo de cada sorriso e risos.
Lembro quando atuamos juntos numa peça apresentada em cinco sessões. Interpretávamos personagens da adaptação de "E agora, mãe?", uma peça voltada para o público adolescente, com temática central representada pela gravidez precoce. Meu papel era do irmão de Melissa, a garota que ficaria grávida precocemente. Minha amiga fazia papel de uma garota viciada em álcool. Nossa relação? A personagem dela gostava do meu personagem. E no final, passamos abraçados de um biombo a outro, representando a passagem do tempo. Nos agradecimentos, de mãos dadas, fomos até o centro do palco e nos curvamos ao público. Cinco vezes. Juntos.  
Nossa amizade nem sempre foi tão forte. Passamos por problemas, crises, choros. Afastamo-nos quando a classe criou uma espécie de muro de Berlim, lá pela altura do segundo ano do médio. Eu fiquei de um lado, e ela do outro. Foi terrível. A coisa só foi melhorar quando finalmente a sala quebrou essa divisão boba. Embora parte dele tenha ficado intacto, eu me encontrei, finalmente e novamente, do lado desta minha amiga. Infelizmente essa foi uma, entre várias, das situações ruins que passamos. Nenhuma barreira, entretanto, superou o que havia entre nós.
Depois de formados, nós começamos a encontrar as primeiras dificuldades da vida adulta. Precisávamos de emprego e conseguimos. Trabalhávamos na parte da manhã e tarde. À noite, curso pré-vestibular. Lutávamos contra o nosso sono em busca de um futuro melhor. E confesso que o semestre que passamos juntos, nessa rotina, foi maravilhoso. Descíamos para o ponto de ônibus, carregados de assuntos novos e novidades. Eram cinco dias juntos na semana e nunca faltava pauta. Assim como no ensino médio, havia dias bons e ruins. E estávamos dispostos a oferecer aquilo que fosse preciso um para o outro.
No segundo semestre daquele ano, ela saiu do cursinho. Senti muito sua falta, mas no que diz respeito à amizade, não tivemos problemas. Logo aquele ano terminou e mais uma fase de nossa vida passava. Entramos em processo de habilitação! Só quem já passou por isso sabe como é. Uma tensão capaz de fazer o estômago dar milhares de voltas, dobrar-se, revirar-se. O nervosismo é tamanho que você chega a tremer. Pois bem. Passamos por essa fase sem ter que desembolsar reprova. Ainda bem!
E então, naquele sábado de embalos, passamos parte do caminho pensando em tudo isso. Pensando que um dia nossos passeios foram outros, nossas cabeças eram outras. Queríamos que nossos pais deixassem que ficássemos nas festas além do tempo, queríamos ter carteira de habilitação, queríamos ter dinheiro, queríamos os famosos dezoito anos! E então, alguns anos passados, depois de conquistarmos cada coisa que conquistamos, nós percebemos juntos que valeu a pena esperar. Embora pareça que demore, tudo o que passamos, antes das conquistas, serviu como uma grandíssima experiência. Aprendemos a ser quem somos graças aos obstáculos. Apreendemos muito, crescemos como pessoas e ainda temos muito que passar. Pois o que vivemos hoje, amanhã veremos com outros olhos. Mas a amizade permanecerá a mesma. Linda e forte como é.
Grande amizade desde fevereiro de 2009
Te amo.

Luís Fellipe Alves 



7 comentários:

  1. Lindas reminiscências, Felipe.

    Há quem veja nas amizades labirintos, eu prefiro ver mapas que são melhor percorridos quando tateamos suas rotas rumo ao coração...

    Um abraço!

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    1. Olá Will! Concordo que assim seja. Afinal, labirintos lembram uma agonia, por mais pequena que seja, que só termina quando você sai dele.Belíssima comparação, amigo.

      Abraço!

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  2. Teu texto me trouxe várias lembranças... Engraçado como são amizades, as vezes se afastam e voltam quando menos esperamos, acho que o segredo é não se despedir, mesmo que a despedida exista... Não tive amigos no ensino médio, era o menino estranho de cabelo grande, com a cara grudada num livro do Senhor dos Anéis, ou sempre desenhando, diziam que eu tinha cara de psicopata (coisa que eu achava graça), o que era uma conveniência pra manter as pessoas afastadas, aprendi a importância de se ter amigos graças a insistência de alguns que não desistiram de mim, que venceram meu isolamento e deficiência social, a esses serei sempre grato, me ensinram que amizade é uma das maiores dádivas da vida!

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    1. Interessante isso que disse, Paulo. Vivemos sob tantas incertezas que despedir-se não pode caber como recurso.
      A amizade nos ajuda em vários pontos, e daí nasce sua importância irrevogável. Também tive essa minha época de isolamento. Eu não ligava se teria ou não um amigo. Mas quando encontrei-os, mesmo que só por dois anos, tive a sensação de que a minha vida teria sido melhor se tivesse os conhecido antes...
      Infelizmente hoje a cautela precisa ser dobrada se não quisermos ter um daqueles famosos "amigos da onça". Mas uma das coisas que nos permitem conhecê-los melhor, é sem dúvida, o tempo. E aí só arriscando...

      Abraço!

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  3. Linda ela, linda a amizade de vocês.

    “A vida é tão maravilhosa porque também é feita de colos, de feridas que cicatrizam, de amigos que celebram ou choram junto. Feita de pessoas apaixonadas e apaixonantes, possíveis e impossíveis, pessoas que machucam, pessoas que chegam pra curar."
    Marla de Queiroz

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    1. Agradeço por ela! Sempre muito boas citações, Tina.

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  4. O amor é lindo e você fez uma linda escolha. Que continuem assim: eternamente jovens, rindo dos detalhes da vida, que são a essência mesmo para ser feliz. Esse é o segredo! E quanto às dificuldades que sempre teimam em aparecer? Que tal pulá-las com sabedoria? Felicidades, aos dois! :)

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Obrigado!




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