segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sono inoportuno






É normal sentir sono nos momentos mais inoportunos. Assim como tem gente que ri numa situação tensa ou se distrai muito facilmente com o discurso alheio. Mas o problema é que o bendito não larga o pé até que qualquer coisa te distraia e te desperte repentinamente. E é quase impossível vencê-lo! Bastam algumas horinhas perdidas na noite passada e o resto do dia fica todo sujeito a um sono que pode surgir a qualquer hora. Três bocejos. Olhos pesados. Pronto. Ele te venceu.
Lá pelos meus doze anos de idade, quando estudava na parte da manhã e ficava o resto do dia praticamente livre, eu precisava marcar consultas na parte da tarde. E todo santo mês eu comparecia ao dentista pra que doutora olhasse o lindo aparelho que usei por quatro anos. O trajeto, de ônibus, durava uns quarenta minutos. Sem dúvida alguma, cinco minutos depois de embarcar, eu já estava encostado no vidro tirando uma linda soneca. Devo ter perdido o ponto umas cinco vezes. E por mais que eu lutasse contra o sono, era impossível!
Mas sempre há um fator que age como despertador. Perder o ponto, por exemplo, te faz acordar na hora! Perder a hora, então, é ainda mais eficaz. Não há susto matinal maior do que perceber que faltam trinta minutos para entrar em serviço e você acaba de abrir os olhos! 
Ainda nessa vida de transporte público, já fui muito mal despertado. Voltava da comemoração do aniversário de uma amiga e, já quase amanhecendo, preferi utilizar o ônibus para não acordar meus pais e pedir que eles me buscassem. Pois bem. Depois de uma noite inteira dançando, não tive dúvidas em sentar no banco, encostar a cabeça no vidro e dormir. Despertei antes de chegar em casa. Mas não foi de uma maneira agradável. Gritos me acordaram. Eu estava sentado ao fundo, e os gritos vinham lá da frente. Eram gritos de ordem. Era um assalto ao ônibus... Meu sono sumiu por dois dias! 
Na aula, o bendito marcava presença. No ensino médio, as duas aulas que mais me deixavam sonolento era Física e História. Física era a última aula das sextas-feiras. Cinco dias equilibrados nas costas, os últimos cinquenta minutos letivos da semana e os olhos pesadérrimos! Escutei várias vezes:
- Luís Fellipe, vai lavar o rosto...
Nem precisava. Só a vergonha de ver a sala toda olhando pra mim já bastava como forma de despertar. Ao menos eu não era o único.
Há, também, aquelas reuniões de família que terminam lá pra altura das quatro da manhã. Quando você é criança, se arruma em qualquer cantinho. No colo da mãe, da avó. Mas aí você cresce e atinge a aborrescência, localizada ali entre a infância e a fase adulta. Esticou, ou está mais pesado, então sem colinho de mãe. Os adultos se divertem e se não houver uma pessoa da sua idade para conversar, o sono vem logo. Nessa minha fase, na maioria das vezes, sempre havia alguém da mesma idade. Mas o sono vinha mesmo assim. Acabava arrumando um cantinho no quarto de hóspedes da casa...
O momento mais engraçado do meu sono foi uma vez que fui ao rancho de meus avós. Eu tinha uns onze anos. Era uma sexta à noite, eu e meu tio iríamos até lá levar algumas coisas que os velhinhos pediram. Não iríamos ficar pra dormir, voltaríamos na mesma noite. Chegando lá, ficamos para a janta. Depois do jantar, sentamos na varanda, eu em um banquinho. Conversa vai, conversa vem. O sono não demorou aparecer e entre uma pauta e outra eu dava algumas pescadas até o momento em que entreguei meu corpo para o sono e... Caí do banquinho. Depois de constatarem que eu estava bem, não teve um que não riu. A história está acesa nos encontros de família até hoje. E eu me divirto com eles dando risada da minha sonolência. Chegam até dizer “Os adultos é que bebem e você que sai caindo por aí. Sentado, ainda!”.
Dormir em público é fazer careta para as pessoas rirem. Se roncar, pior ainda...  E o sono não está nem aí. Às vezes parece que ele tem vida própria. E adora pregar peças. Quando você está gripado, por exemplo, à noite. O sono vai pra balada. E quando você finalmente se livra da madrugada, ele volta da noitada e paira sobre você o dia todo. Dá pra entender? 
Apesar de um amigo da onça, ele é um forte aliado da saúde. Mas precisa aprender a não aparecer em qualquer hora... Do contrário continuarei dormindo por aí. Engraçado que, nesse tempo todo, a culpa não deixa de ser minha. Mas prefiro ficar com a teoria de que o sono tem vida própria. Boa soneca! 


Luís Fellipe Alves

19 comentários:

  1. (risos) É que nem sempre temos tempo suficiente para dormir. Nunca fui muito dorminhoca, então paguei menos mico. Mas na idade da pré-adolescência, o sono é meio químico para os meninos. Mesmo que não queiram são mesmo vencidos facilmente pelo sono. Isso vai passar. Chegarão os dias em que vc não terá mesmo tempo para dormir e então... ficará acordado e de bom humor. Fazer o quê? Mas sono mesmo sentem as mães com a chegada dos filhos, que trocam os dias pelas noites. Elas não dormem quando eles são pequenos e não dormirão quando crescerem... de preocupação. Sono? A gente aprende a domá-lo com o tempo. Abraços, amigo!

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    1. Rovênia, dessa eu não sabia! Tá aí o motivo, então. Ainda bem que estou me retirando dessa fase a cada dia que passa. Nesse sentido, é claro. Adolescência é mágica, mas uma hora a gente precisa soltar da mão dela rs.
      Imagino com a vinda de uma faculdade, por exemplo, o quanto terei que ficar acordado... Filhos parece uma realidade um pouco distante, mas sei que passa rápido. E não resisto a crianças. Sem dúvidas, quero três! Três vezes o trabalhão. Mas com certeza as mães cansam mais. Coitadas!
      Aos poucos vou dominá-lo, tenho certeza. Já consigo me manter acordado nas aulas de história do cursinho. É um bom começo!

      Abraço!

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  2. Essa teoria deve ser publicada nas respeitadas revistas científicas!
    Verdade total!
    Bem acho que nós já nos encontramos naquele dentista em que se ia uma vez ao mês para dar uma apertada no aparelho ( doía hein? ) e o trajeto do ônibus também demorava uns quarenta minutos.
    Mas toda esta história me lembrou meu bom pai velhinho que dormiu no ônibus e quando acordou ficou tão desnorteado que chegou em casa num camburão de polícia. Eu quase infartei ao ver aquela veraneio preta na porta de casa com um policial segurando meu pai pelo braço.
    Rimos muito depois e ele ainda disse: foi bom eu ter entrado em pânico, assim não precisei esperar o próximo ônibus para voltar para casa. De polícia foi mais rápido!
    Beijo

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    1. Ah, os aparelhos! Desde os nove anos de idade nessa de apertar, tirar, limpar, usar sempre. Mas passou, ainda bem! O bom é o resultado.
      Mas que história! É muito ruim perder o ponto, mas nesse caso, parar em um lugar totalmente diferente deve ser pior ainda... Ao menos a voltinha no carro da polícia foi mais rápida. Chega de cochilos no ônibus!
      Beijo

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  3. Ai! Ai!
    Vida própria. Sei! Claro! A vida de seu sono chama-se Felipe e a morte dele chama-se lavar o rosto, banho frio se o caso for grave, um mantra pode ser a saída par alugares públicos (é mico dormir aqui, é mico, é mico...), se alimentar direito, dormir bem a noite, consumir café talvez, mascar chiclete, ter sempre um docinho a mão para o açúcar ativar seu estado de alerta, cantarolar, não tomar suco de maracujá...

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    1. hahahaha poxa, tudo é culpa minha! É que minha rotina é pesadinha mesmo. Levanto às 06:00, entro no trabalho às 07:30, saio às 17:00 e as 19 entro na aula e só vou chegar em casa de novo às 23h20. Mais algum tempinho pra jantar e me arrumar pra dormir, acabo adormecendo já no dia seguinte... Pra começar tudo de novo às 06. Sextas são um alívio! rsrs
      Sabe que faz tempo que não tomo suco de maracujá? Mas, nesse caso, prefiro de laranja. Uma explosão de vitamina C na dieta e menos sono no resto do dia. Uma maravilha!

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  4. Ótimo texto!
    Nem fale de sonecas em momentos inoportunos, desconfio que eu tenha narcolepsia, mas não vou ao médico checar com medo de perder a desculpa! Durmo no cabelereiro, no dentista, mesmo com a maquininha ligada, durmo, principalmente, em veículos em movimento, isso é quase uma cantiga de ninar pra mim, e, infelizmente, algumas vezes já cochilei no trabalho enquanto atendia um cliente, a tela do computador escondia meu rosto e dei uma pescada longa sem perceber, quando é assim só muito café e água fria no rosto! kkk


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    1. Que esperto! hahaha
      Acredito que você tenha que ir ao médico sim. É só não contar a ninguém e continuar usando a desculpa! Dormir no dentista é bom. A cadeira é confortável, a maquininha agrada (se não te fizer sentir dor, clar) e, às vezes tem uma musica baixinha no consultório, o que ajuda muito!
      Há pouco que tomo café, e vem ajudando bastante... Só não gosto muito. Tenho me sentido muito mais velho: estresse, dores de cabeça e café são sinais de vida adulta. Não que precise ser assim, mas é uma ideia genérica...

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    2. P.S.: Obrigado pelo elogio ao texto!

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  5. Responda-me uma coisa: o que acontece com a aula de história que faz a gente dormir... hein? Eu dormi em toooodas!!! Kkkkkkk

    Eu bem que poderia ter escrito essa crônica tanto que me identifiquei com ela. Meu sono é um ‘cara’ muito inoportuno e aparece nas horas mais impróprias. Assim como os acessos de risos.

    Vc já dormiu em restaurante com musica ao vivo? Eu já. A comida pesada, o cantor cantava tão baixinho com uma voz tão mansa que eu confundi com canção de ninar rsrs.

    Ok, vou confessar, sou muuuuito dorminhoca, adoro dormir!! É a segunda coisa de que mais gosto. A primeira é praticar o ‘nadismo’ por uma hora inteirinha na cama depois que acordo. Sem culpa nenhuma, viu? Essa é uma das poucas vantagens que temos na infeliz da 'melhor idade', não vou aproveitar? rsrs

    Seu relato sobre as reuniões de família que varam a madrugada me lembrou o meu filho: ocupou o meu colo até os 10 anos rsrs. Mas ficava acordado, a curiosidade pelas conversas dos adultos vencia o sono rsrs

    Maravilha de crônica!!!

    Bjobjo!

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    1. Sueli, ainda é um mistério! Hoje ainda consigo prestar mais atenção, até porque não é mais o ensino médio e dependo daquela matéria. Mas a oralidade me mata! Amo humanas, mas, nesse aspecto, as exatas ganham. Não durmo na matemática e nem na física!
      Restaurante com música baixinha é um convite pro sono! Nunca aconteceu comigo, mas acho que ficaria bom se o repertório fosse mais agitadinho, não? Talvez umas músicas do Grease, que eu adoro, e que sempre são bem identificadas por muitas pessoas. Pelo menos haveria menos pessoas pescando e mais pessoas arriscando passinhos!
      Nadismo tem que ser aproveitado mesmo! Nunca deixe de aproveitar. É uma boa hora pra refletir, também. A mente está calma, tranquila, é ótimo para tomar decisões ou se preparar para tomá-las.
      Crianças tem uma curiosidade engraçada! rsrs Mas isso parece fazer um tempinho, né? É a vez dos seus netinhos dormirem no colo da avó ou da mamãe! rsrs
      Muito obrigado, Sueli. Obrigado por vir!
      Beijo!

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  6. Estou rindo aqui! Desculpa, mas sua queda do banquinho deve mesmo ter sido hilária... Se bem que, em termos de sono, não sou a melhor pessoa para rir dos outros! rsrsrs Não que eu seja uma típica dorminhoca, sempre dei conta de acordar cedo e de passar bem o dia mesmo com poucas horas bem dormidas... até realizar um curso intensivo no primeiro semestre de 2012! Aí, meu amigo, o problema não foi a adolescência, e sim o ingresso nos 30 querendo ter pique de garotinha para fazer tantas coisa ao mesmo tempo rsrsrs Confesso que passei maus bocados nas aulas expositivas, era mais forte do que eu! Não gosto daquela coisa estática, sou agitada demais pra ficar quieta só ouvindo... e minha memória é visual, bastava eu ler o conteúdo por meia hora pra alcançar os mesmos resultados de um dia ouvindo o professor!

    Mas cair do banquinho, bem, eu nunca caí... rsrsrs

    Adorei, abraço pra você e bons sonhos nesta noite!

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    1. Ah, minha história com o banquinho! Agora sim vai ficar acesa! rsrsrs
      Ah, então esse sono vai reaparecer daqui a algum tempo? Não estou tão longe dos 30. Menos de 11 anos e eu chego lá. Com o tempo voando, então, nossa...
      Mas uma coisa eu digo: É tanta preguicinha que é capaz de eu nem me livrar do sono nesse período dos 20 aos 30. Emendo tudo e continuo um dorminhoco! Mas o meu problema é o tempo que durmo por dia. Fico devendo umas duas horas de sono por noite por conta da minha rotina. A tendência é piorar com a universidade vindo aí. Ao menos estarei mais acostumado!

      Bons sonhos a senhorita também.
      Abraço e obrigado!

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  7. Excelente post. Retratou a realidade! Hehehe. Abraço!

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  8. Ah, não Fellipe!! Essa foto que você postou... até hoje ninguém conseguiu explicar por que alguém boceja, todos bocejam!! Já entrei 2 vezes no teu blog para ler, e essa dona aí em cima me faz bocejar!

    Adorei sua crônica, mas pior é quando alguém chega e diz: 'pô, mas como você dorme feio, hein?' O coitado(a) está dormindo de boca aberta. Sim, é triste!
    Eu não costumo dormir muito, mas se vejo alguém bocejar, começo e não tem fim! Por isso, tchau, amigo, saio correndo daqui e dizendo que adorei sua crônica apesar da dona aí...
    Fui!!! A mil.
    Beijo

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    1. Tais, foi proposital! Na verdade, ia escolher uma imagem normal. Mas quando vi essa (e bocejei), não aguentei e tive que colocar! hahaha

      Já dormi de boca aberta e, nossa, foi uma tragédia. Tiraram uma foto num celular e duas semanas depois o celular caiu numa piscina. Minha vingança é psicológica! hahahaha

      A dona já não está mais aparecendo no comecinho da pagina inicial. Pode voltar quando quiser.

      Beeeijo!

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  9. Sono bom, entregarmos ou não a ele? Muito bom!! Um abraço Luís.

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    1. Quando for um local adequado, sem dúvidas me entrego!

      Abraço, Milene.

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Obrigado!




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