segunda-feira, 20 de maio de 2013

Rearranjos


Não há serviço que renda menos que arrumar o próprio quarto ou qualquer outro lugar que armazene lembranças. No meu caso, dificílimo. Guardo comigo algumas de muitas memórias físicas, que ficam em caixas esquecidas pelo passar dos anos e, de tempos em tempos (não tanto tempo quanto demora o ciclo do Halley)  acaba surgindo a necessidade de rearranjar tudo para caber mais. Algumas coisas vão para o lixo, definitivamente. Outras têm valor sentimental muito grande: é quase impossível jogar fora.
Na última vez em que fiz uma faxina de rearranjos, encontrei coisas da época da pré-escola! Os caderninhos em que eu treinava minha caligrafia, alguns desenhos cheios de formas intraduzíveis e até cartõezinhos que fazíamos na época de páscoa ou natal. O cheiro do papel colorido, de cola e de guardado-há-séculos me fez viajar no tempo e desfrutar das mais importantes lembranças da época da escolinha. Dividir o lanche, negociar a vez no balanço do parquinho, tentar montar castelos com o LEGO na recreação, descobrir palavras novas na aula (minha preferida era “beba”).
Encontrei também um autorretrato ou o que deveria ser um. Foi na época da sexta série, valia nota para a disciplina de artes e tinha ficado horrível. Nunca levei jeito para desenhos artísticos, apesar de apreciá-los. Lembro-me que, nessa época, vários desenhos de colegas tinham ficado ótimos se comparados ao meu. Ainda bem que a nota não foi tão ruim. A pior parte desses trabalhos era toda a burocracia antes de começar. Precisava de margem de um centímetro e meio e, atrás, um retângulo com informações do aluno. Seis linhas, meio centímetro cada uma e no final da terceira e da quarta linhas, ambas deveriam se emendar para alocar o número do trabalho. Quanto detalhezinho...
Ainda vasculhando a pasta onde encontrei o (pseudo)autorretrato, vi alguns trabalhos de uma disciplina da quinta série que se chamava cerâmica ou AES (Área econômica secundária). Aprendíamos sobre o uso da argila, a história, os materiais para modelagem e também a sua evolução com o tempo. As aulas práticas aconteciam em um salão oficina, onde havia o material necessário que deveria ser somado a sua criatividade para dar forma ao trabalho. Nos demais anos, a disciplina consistia em aprender sobre madeira e reparos leves, como faziam alguns alunos da sétima série com carteiras e cadeiras danificadas. Infelizmente, quando deixei a quinta série, a matéria foi tirada da grade de aulas da escola, que era a única na qual a disciplina ainda sobrevivia.
No fundo do guarda-roupa, encontrei um cofre que um dia teria servido para guardar moedinhas, mas que dificilmente seria cheio. Era enorme! Depois de um tempo parado, resolvi usá-lo para guardar algumas coisas também. E nessa grande faxina encontrei-o novamente. Lá dentro estavam alguns brinquedinhos-surpresa de ovos de páscoa que ganhei quando era garoto, um frasco vazio de um perfume que tem um cheiro inesquecível, um suporte para durex em forma de coelho e até um celular antiguíssimo, um de meus primeiros.
Não satisfeito em encontrar um milhão de coisas que trazem lembranças boas, avistei uma caixa estilo arquivo. Lembrei-me de tê-la pego no trabalho do meu pai, há muitos anos, e usei-a para guardar alguma coisa que eu descobriria logo. Quando abri, veio-me a origem do meu interesse por leitura. Lá estavam vários gibis e livros que eu devorava na minha infância! Os contos de fadas famosos, numa versão de doze volumes, que ganhei de minha mãe quando fomos juntos à feira do livro da cidade. Nostalgia é a palavra.
Depois de várias horas, a faxina estava apenas no começo. Distração e relógio são parceiros de trabalho... Só não sei o que eles querem comigo! Naquele dia, a faxina que havia se iniciado de manhã, foi terminar bem à noite. Havia uma infinidade de outras coisas que me trouxeram boas e ruins lembranças, mas que me fizeram muito bem.
Muito foi para o lixo, mas os mais importantes ícones ficaram. Naquela noite, enquanto tentava dormir, vieram-me muitas outras dezenas de memórias. Como é que simples pedaços de papel e pequenos objetos podem ter tanto poder assim?
Apesar do grande trabalho, valeu a pena. Posso dizer que até faria tudo de novo. Mas só daqui um bom tempo... 
Luís Fellipe Alves 

14 comentários:

  1. Amigo, nesse fim de semana, eu e meu marido fizemos uma faxina juntos. Quanta coisa guardada. Achei muita coisa antiga, os primeiros desenhos das crianças, livros raros que não lembrava mais - como a reedição limitada do original de Braz Cubas -, fotos de meus primeiros cachorros que não existem mais, meus textos na faculdade (datilografados)... enfim... o trabalho de rearranjo não terminou ainda. Há pilhas de coisas para ordenar. Mas foi bom jogar muito papel e souvenir fora e renovar o ambiente! Conselhinho: guarde seus cadernos. Serão lembranças que te farão sempre sorrir. Abraços!

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    1. Uau, você encontrou relíquias! Às vezes essas faxinas são muito boas. Ajudam a resgatar lembranças que por vezes ficam presas dentro da gente, mas precisam de um empurrãozinho para aparecerem... Meu pai me mostrou alguns textos que ele também datilografou quando fez um curso para se especializar.

      Rearranjos dão um trabalho imenso, mas valem a pena. Na próxima também vou dividir em etapas e talvez deixar para outro dia. Assim posso desfrutar mais das lembranças.
      E obrigado pelo conselho. Eles estão bem guardados e não abrirei mão!
      Abraços

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  2. E acredito que todo esse poder que simples pedaços de papel têm, vai se traduzir em outras ótimas crônicas como esta!
    Beijo

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    1. Muita boa previsão! Sabes como eu que basta uma poeirinha para que o cronista ache assunto para dar forma a seu trabalho. Um papel com tantas memórias é excelente!

      Beijo

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  3. Vou te contar um segredo. Vários na verdade :)

    Eu guardo minhas agendas de adolescência com escritos de quando conheci meu marido e tenho um arsenal, quase um museu de embalagens de chocolates que nem existem mais ou já mudaram a embalagem trocentas vezes. Embalagens antigas da Mac Donald´s e de outras lanchonetes, cartões e cartinhas de amigos e parentes Tenho provas da escola, tenho desenhos, objetos diversos (LP dos Menudos) e sempre faço viagens em meus guardados que chamo de baú de tesouros.
    Tem sempre espaço garantido para tudo, se temos espaço para coisas de usar por fora, eu penso, temos que ter espaço para as coisas que nos recheiam.

    O mesmo eu faço com as coisas da bebezices e infância de meu filho e nas viagens por esses guardados, sento no chão arrumo os jogos, legos, pininhos e passo dias nessa limpeza e catalogação (muita coisa eu escrevo sobre e guardo junto as anotações, vai que fico lelé da cuca...rsrs...na verdade é para ele ler e mostrar aos filhos, netos...). Tem muitos livros, gibis, bonecos de ação.
    Meu marido sempre faz a piadola: vc está arrumando ou brincando?

    Bom viajar no tempo por aqui como extensão a viagem que fiz lá hoje. Sintonia e sentimentos a flor da pele :)

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    1. Acho muito legal guardar coisas que podem sofrer mudança com o tempo. Já vi embalagens antigas de alguns produtos, mesmo que por fotos, e senti-me viajando em outro tempo... As águas que me banham nesse rio não serão as mesmas águas que me banharão daqui a alguns anos. Não é? Tudo está mudando constantemente.
      Mamãe também fez isso! Guardou várias coisinhas para mim, só não anotou nada. Depois de muito tempo, ela me mostrou. Havia vários brinquedinhos da minha época de criança, bolas, cartinhas, desenhos, presentes de dia das mães/dos pais.

      Adorei seu post lá e essa conexão de posts!

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  4. rsr, as minhas faxinas não dão em nada, fico com pena de me desapegar de 'minhas memórias. Vou indo, selecionando e quando vejo não enche um balde! Mas sempre tenho a intenção de mudar, de me desapegar. Mas um dia deverá sair uma grande faxina; me sentirei realizada nesse quesito. Vejo que muita coisa é entulho.
    Adorei seu texto.

    Beijos, amigo.

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    1. Normal. Às vezes juntamos coisas demais que são importantes e nenhuma acaba entrando nos critérios de descarte. Então fica difícil! Um dia sua piedade fica um pouquinho bloqueada e seus critérios crescem rsrs

      Beijo.

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  5. Luís Fellipe,

    Que delícia ler este texto! Fiquei viajando nas minhas próprias faxinas, que acabam assim como as suas: pura nostalgia! Um simples papelzinho guardado nos leva,de repente, para um momento ou para uma fase inesquecível de nossas vidas... Além disso, nessas ocasiões me deparo com meus diários e aí se vão horas lendo aqui e ali... Mas quer saber? Adoro essas oportunidades de visitar a criança e a adolescente que fui,sempre sobra muita coisa boa para relembrar!

    Quando for tempo de nova faxina, aguardo novas lembranças compartilhadas aqui no Cronicalize, ok? rsrsrs

    Abração.

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    1. Suzy, é muito bom mesmo poder relembrar, afinal os dias não voltariam só para nos mostrar como fomos. Os papeis e objetos são nossa forma de fazer essa viagem sem que o tempo pare... Guardamos um momento para viver a nostalgia e está tudo certo rs.

      Numa nova faxina, outras crônicas virão, sem dúvidas!

      Abraços

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  6. Texto cheio de saudades!
    E me fez ter saudades também de minha época de estudante... Eu estudava no SESI de minha cidade e também tinha aula com argila, madeira e tinha até uma que ensinava sobre eletricidade. Quantas saudades!

    Tempo bom que não volta mais... Hoje compreendo o porquê da minha mãe sempre dizer: "Aproveita porque passa rápido". Daqui uns anos não tenho dúvidas de que sentirei saudades de hoje, dia 23 de Maio de 2013 rs...

    =* beijos, se cuida!

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    1. Joanna, essas disciplinas do SESI eram realmente boas né? Uma pena eu ter pegado tão pouco dessa atividade superdiferenciada, fiquei só na argila mesmo... Eles precisaram retirar a matéria, acredito, por conta de leis do ministério da educação... Dá muitas saudades mesmo.

      Exatamente! Já ouvi bastante disso também. E quando olho pra trás eu penso: ainda bem que aproveitei. E precisamos continuar aproveitando, né?

      Beijo, obrigado pela visita ;)

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  7. Fê!

    Essas faxinas sempre me rendem grandes momentos de nostalgia, doces lembranças, risos, e muita saudade... Eu disse faxina? Não! Comigo não é faxina, é remexer e guardar tudo de volta! rsrs. Tenho uma baita dificuldade de me desfazer de coisas que tem algum significado.

    Meus filhos tbm não se desfazem de nada, trazem pra eu guardar rsrs. Já fiz uma ‘limpa’ na casa da minha mãe e peguei fotos, coizinhas do meu tempo de colégio e tuuuuudo o mais que ela guardava como recordação.

    Vc já viu nos filmes aquelas casas que têm um sótão abarrotado de coisas?... Pois é, eu tenho um! rsrs. Gosto de passar o dia lá revendo tudo, acho uma delícia!!

    Ameeei, seu texto!! Despertou meu interesse em saber se haveria alguma similaridade comigo! Apesar de vc declarar que ‘muita coisa foi para o lixo’, penso que um dia vc vai ter um sótão para onde irão esses ícones que vc preservou rsrs.

    Bjão procê!! Lindo findi!!

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    1. Sueli, que bom te ver por aqui!

      Sem dúvida alguma, somos bem parecidos nisso aí. E que bom que sabemos preservar assim, é fundamental construir nossa própria linha do tempo e isso se faz com nossos próprios registros, né? Minha mãe já tem um desapego maior. Fica me dizendo pra diminuir a quantidade de coisas guardadas antes que a casa vire um museu. Olha que ideia interessante, não? rsrs

      Nossa, também quero um sótão! Vai ser utilíssimo, tenho certeza rsrs

      Bom feriado que vem aí, beijos!

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Obrigado!




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