segunda-feira, 17 de junho de 2013

Angry Humans





Quem nunca teve raiva, não atire a primeira pedra, do contrário acabaria aparentando ter. Parabéns a quem consegue controlar a raiva contando até dez, respirando fundo ou utilizando-se de qualquer outro método válido. Anda mais fácil encontrar trevo de quatro folhas ou vaca que tussa a encontrar gente paciente.
Às vezes basta um esbarrão na rua, sem querer, para que atirem um bocado de palavrões, uma cara feia, um empurrão de volta. Certa vez eu caminhava pelo centro, em época de reformas – e de eleição, logicamente , e havia pouquíssimo espaço para andar, pois o calçadão fora reduzido a dois pequenos corredores enquanto eram perfurados pelas revitalizações. O povo se espremia naquele espaço e precisava acompanhar o fluxo lento, que oscilava de velocidade a todo instante. Uma senhora, para sua infelicidade, perdeu atenção por alguns segundos e não viu que a mulher a sua frente havia parado. Acabou batendo contra ela, pediu desculpas, mas foi em vão. A mulher empurrada xingou, se esbravejou e parecia um tomate falante, de tão vermelha. Não fiquei para ver o resultado.
No trânsito, a coisa pega. Sua forma de garantir a segurança muitas vezes não é a forma do outro. Valem-se os apressados e impacientes de buzinas, xingamentos, mãos e tudo mais. Lembro-me de um dia no ônibus. Estava em uma avenida com sentidos divididos por um canteiro e, próximo a ele, havia um motociclista parado indevidamente. E então, quando o ônibus se aproximou, o moço resolveu sair com a moto. A preferência é de quem já está em movimento na via, claro. Porém o motociclista, que quase meteu a moto na lateral do ônibus, ficou furioso mesmo estando errado. Alcançou-nos e lançou ao motorista uma ameaça de morte...
Não sei qual o motivo de tamanha impaciência. Talvez estejamos absorvendo um estilo de vida no qual essa condição está contida. Por banalidades, vidas têm sido tiradas ou têm seu sentido completamente alterado. Há algum respingo de racionalidade em atirar no vizinho por causa de lixo? Por causa de barulho?
Não sei dizer ao certo qual será o futuro dessa questão. Talvez, misteriosamente, aprendamos a ser menos irritados e mais compreensivos, embora o caminho de volta de um vício seja sempre mais difícil. Sim, parece um vício. Espalhou-se facilmente, é adotado frequentemente e com muita dificuldade é controlado.
As atitudes de um Homem com raiva têm sido motivo para vergonha. Vergonha de uma espécie que se destaca, mas não consegue resolver problemas sem tirar sangue. Sem quebrar. Sem lançar o punhado de palavras de um vocabulário chulo e sem sentido.
Ou temos ido contra a racionalidade em si, ou interpretamos seu sentido muito mal e, neste caso, a irracionalidade seria muito superior. Pois qualquer rugido do leão é justificado como instintivo.
Luís Fellipe Alves 

6 comentários:

  1. O ser humano, infelizmente, está longe de ser civilizado. O trânsito é assustador; e as pessoas precisam aprender a praticar o autocontrole. Precisamos melhorar como sociedade. Abraço!

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    1. Levamos lições diárias do que nossa falta de educação nesse ponto tem feito. Mas estamos sempre repetindo os erros...
      Abraço!

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  2. Amigo Luís Fellipe, também quero saber o motivo de tanta impaciência - inclusive da minha! Parece que temos pressa para tudo, no anseio por algo que nem sabemos ao certo o que é... Afinal, em relação ao trânsito, priorizamos chegar "mais cedo" ou chegar "bem" ao nosso destino? De tanto que queremos economizar tempo, criamos atritos desnecessários, e acompanham úlceras e doenças diversas... Cadê a qualidade de vida, refletida no sorriso estampado no rosto e na alegria visível? Ninguém quer ceder um milímetro, a disputa é constante, por espaço na via pública, por assento vazio no ônibus, por lugar na fila... Para que toda essa loucura, o que justifica tamanha urgência? Por fim, nos tornamos seres raivosos e mau humorados, prestes a 'um dia de fúria' motivado por um barulho inesperado qualquer! É, estamos enlouquecendo, e você veio nos dar o diagnóstico.

    Texto muito bem escrito, proposta interessantíssima de reflexão! Muito a calhar com estes dias em que vivemos. Abraço aí!

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  3. Pois é!
    É uma impaciência, uma pressa, um nervoso, um mau-humor, uma arrogância, um senso de urgência, um não esperar, não se colocar no lugar do outro, não se desculpar, um horror!

    Dentre as coisas que sempre conto a quem me pergunta o que achei da Disney, está algo que me fascinou, as pessoas tropeçavam ou esbaravam em nós (mto comum pelo fluxo enorme de gente) e antes que vc pudesse pensar elas pediam desculpas, mas a melhor parte era que se vc tropeçávamos ou esbarrávamos nelas elas pediam desculpas tb, ai pedíamos tb, ai era uma sensação de civilidade que fazia um bem danado.

    Precisamos de mais civilidade, em tudo, acada piscar de olhos, para virar um hábito e não uma regra.

    Estou pensando em criar um blog de incentivo a atitudes, ideologias, de mudança de mentalidade vou pensar e vou sugerir por lá, caso não leve o projeto a frente sugiro logo aqui...rsrsrs...tocar nas lojas, escolas, faculdades, empresas, estádios, uma vez por dia o hino e outra a música de Lenine:

    Mesmo quando tudo pede
    Um pouco mais de calma
    Até quando o corpo pede
    Um pouco mais de alma
    A vida não para

    Enquanto o tempo
    Acelera e pede pressa
    Eu me recuso faço hora
    Vou na valsa
    A vida é tão rara

    Enquanto todo mundo
    Espera a cura do mal
    E a loucura finge
    Que isso tudo é normal
    Eu finjo ter paciência

    O mundo vai girando
    Cada vez mais veloz
    A gente espera do mundo
    E o mundo espera de nós
    Um pouco mais de paciência

    Será que é tempo
    Que lhe falta pra perceber ?
    Será que temos esse tempo
    Pra perder?
    E quem quer saber ?
    A vida é tão rara
    TÃO RARA

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  4. Oi Luís,

    Gostei da sua crônica. Você se articula muito bem. Estava na Suzy e fiz uma ponte aérea para cá para conhecê-lo. Gosto de ler crônicas elaboradas com discernimento. Não escrevo em meu espaço, mas gosto de ler. Meu blog destina-se a reflexões e uso textos de autores diversos.
    O ser humano tem mostrado grande processo de desequilíbrio e talvez seja em razão da vida estressada que o mundo atual impõe. Alguns já possuem natureza violenta. Outros têm 'estupim curto' e qualquer motivo já é suficiente para fazê-los explodir. Creio que é por isso que a humanidade caminha a passos lentos rumo à paz. Não é fácil conter a raiva, mas é possível.
    Semana passada passei por dois momentos de constrangimento em um mesmo dia e cheguei em casa arrasada pelas atitudes indelicadas que tive de suportar, sem reagir. A uma, porque sou uma pessoa pacífica e controlada. A duas, porque não suporto 'barracos'. E a três, porque a vida tem mostrado que reações violentas levam a violência maior. No primeiro caso, estava aguardando a saída de um carro, com a seta ligada, indicando que iria estacionar na vaga. Um carro parou em frente. Buzinei levemente para que o motorista percebesse que eu já estava aguardando a vaga. Ele reagiu com deselegância, embora nem tenha percebido que era mulher que esta ao volante. Simplesmente gritou em alto e bom som : 'não vou roubar sua vaga, filho da ...', continuando a esbravejar.
    Dali, fui para o supermercado, e, pela mesma forma, parei para esperar um carro que já ia sair para ocupar a vaga. Uma mulher que parou do outro lado do estacionamento, em outra vaga, gritou para mim, também alto e agressivamente, se eu não estava vendo que parada ali estava atrapalhando a circulação dos carros. Não havia carro algum me esperando e eu não estava atrapalhando ninguém. Então, por que a fúria dela? Ela já não estava devidamente estacionada?
    Estamos precisando repensar a vida e praticar mais o respeito. A impaciência, a ira e a ansiedade formam um caminho que só leva a atritos, a desgastes e a doenças físicas e da alma.

    Gostei da leitura. Parabéns!

    Abraço.

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  5. Raiva no trânsito deixo passar, não dou bola, só fico vendo a loucura presente. Fico assistindo o descontrole urbano. Tenho raiva, sim, e muita, quando é vinda com consciência, bem pensada, planejada. Aí é difícil me controlar... Mas explosões de malucos consigo deixar passar. Acho que me reeduquei um pouco. Pelo menos nesse sentido... rsr

    Beijo!
    Gostei muito!

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Obrigado!




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