segunda-feira, 3 de junho de 2013

Eu consumidor



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 Como consumidor, nunca fui daqueles que reclamam por todo e qualquer problema ao comprar alguma coisa. Muitas vezes acabei ignorando a situação para evitar maiores dores de cabeça. Quem nunca fez isso? Mas também já deixei o sangue ferver e explodir a ponto de perguntar pra uma atendente se eu tinha cara de idiota. Parece que só diante da situação pra conseguir resolver se vale a pena se desgastar ou não...
No ensino médio havia uma professora – a de matemática – que dizia ser bastante rígida na hora de receber o troco de um estabelecimento. Qualquer valor que terminasse com noventa e nove centavos e que ela pagava com um valor redondo, exigia o centavo de troco. Contou que algumas vezes o gerente precisou ser chamado, pois não havia troco para ela. Desses nunca fui! Mas seguindo pelo raciocínio dela, de um em um centavo o lucro pode ser grande, não?
Certa vez, fiz algumas compras com o cartão de determinada loja de roupas e, na hora de pagar, pedi um parcelamento comum. Depois de umas semanas, então, resolvi pagar a fatura adiantada. Quando me mostraram o valor da fatura, a calça que eu havia comprado tinha sido dividida em oito enormes parcelas com valores que somariam quase o dobro do valor original... Fiquei louco. Morrendo de raiva por ter sido enganado – e por não conseguir que o gerente me concedesse o desconto daquele juro abusivo, que nunca deveria ter sido incorporado na compra – paguei o valor para me livrar da dor de cabeça. Mas não fiquei quieto. Encontrei um site famoso de reclamações na internet e não pensei duas vezes: cadastrei uma reclamação contra a loja e cruzei os dedos. Alguns dias depois, a central de atendimento do lugar me contatou pelo telefone. Pediram desculpas pelo erro da funcionária, que parcelou a calça da forma indevida, e propuseram-me um ressarcimento. Minha reclamação havia funcionado.
Sou assinante fiel de uma revista. Logo no começo da assinatura, comecei a ter problemas com as datas em que as edições chegavam. Em algumas vezes, as revistas já estavam nas livrarias havia dias e a minha nada. Liguei na central e fiz uma reclamação. A mocinha me avisou que a edição que eu aguardava já deveria ter chegado, mas que contataria a responsável pelas entregas na minha cidade. Por fim, avisou-me que caso chegassem duas da mesma edição, a segunda ficaria como cortesia. Claro, adorei. As duas revistas acabaram chegando no mesmo dia, mas em horários diferentes. A segunda, porém, gerou um problema. O entregador precisa, simplesmente, deixar na caixa. Mas não. Resolveu apertar o interfone e como eu não estava em casa, minha mãe atendeu. Quando ela recebeu a revista, o rapaz da entrega estava furioso, e revelou, num tom sem educação, que eu estava errado em ficar ligando para reclamar dos atrasos, pois aquela segunda revista sairia do bolso dele. Ao saber daquilo, entrei em contato com a revista e pedi explicações. Desmentiram o entregador. No fim, não sabia quem estava falando a verdade.
A situação mais chata foi quando eu e meus pais visitamos uma loja de materiais de construção. Já era à noite e procurávamos por alguns materiais. A loja estava vazia, andamos por vários corredores e notei que maioria dos lugares onde estávamos, estava também o segurança. O homem disfarçava, ia por outros corredores, mas a todo instante estava perto de nós. Dispus-me a observar disfarçadamente a atitude do homem, mas não disse nada aos meus pais. Poderia ser coisa da minha cabeça. O problema é que meu pai também notou. Além de não levarmos nada do muito que estava nos carrinhos, meu pai quis fazer a reclamação e ainda ameaçou processar o lugar. Fui a alma bondosa que pediu pra que ele desistisse da ideia. Se foi ou não proposital a perseguição do segurança, eu não sei. Mas que nos sentimos mal com a situação, não tenho dúvidas.
Por outro lado deixei muitas coisas passarem.  Trocos errados, quantidade de pão errada, atendimento péssimo inúmeras vezes numa sorveteria famosíssima da cidade, atendentes de call center sem vontade de trabalhar, lojas de shopping que simplesmente ignoram sua presença por acharem que você não teria dinheiro suficiente. A conclusão que cheguei é que pra certas coisas, não vale a pena se desgastar. Com absoluta certeza, nessas situações, outras pessoas acabam fazendo suas reclamações e o fim será o mesmo. Para outras, porém, é necessário estar à frente de seus direitos e fazer a reclamação necessária para evitar que determinada situação continue acontecendo com outras pessoas e até mesmo com a própria.
Não deixei de comprar meu sorvete predileto pelo atendimento ruim. Munido de minha educação, faço meu pedido e aguardo que o atendente, no mínimo, faça seu trabalho correto. No final, saio dali ganhando, sem dúvidas. Como consumidor e como pessoa. 

Luís Fellipe Alves

13 comentários:

  1. Eu sou bastante critica e exigente como consumidora.

    Não faço questão de 1 centavo, mas 10 por exemplo não terem para nos dar, pode; faltar para pagarmos, não. Injusto!

    Mau atendimento, constrangimento, parcelamentos e juros indevidos, passar no débito quando é para ser no crédito. E para mim o caso máximo da total falta de lógica, respeito com o consumidor e com a economia do estabelecimento que paga taxas para uso de cartões: Não aceitar dinheiro porque não tem troco. Hein? Oi?
    Surreal não é?

    Outro dia estava chovendo, pedi um táxi, demorou a beça e quando o cara chegou, entrei no táxi e ele me perguntou:
    - A senhora tem mesmo que sair? Tá chovendo, tudo engarrafado.
    Tenho sim senhor, se não não chamava um táxi.
    Ai ele começou a falar do pais, da cidade, do mundo, da copa e eu pensei em indagar:
    - É sério que o senhor demorou esse tempo todo, me recebeu de má vontade, vou ter que ouvir o senhor falando até meu destino e ainda vou te pagar?
    Silêncio...Não falei nada, coloquei modo mudo mentalmente para td que ele disse. Vai que ele dá a discutir comigo ou tem alguma reação violenta. O mundo tá tão doido. Me controlei.

    Eu deixo de comer coisas gostosas e comprar certas coisas por criar cisma com lugares e pessoas, suga minha energia, faço um X.

    E venho com o passar dos anos deixando de graça. Como sugere Drauzio Varella em um de seus textos que vou buscar e trago já.

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  2. "Em entrevista dada pelo médico Drauzio Varella, disse ele que a
    gente tem um nível de exigência absurdo em relação à vida, que queremos que absolutamente tudo dê certo, e que, às vezes, por aborrecimentos mínimos, somos capazes de passar um dia inteiro de cara amarrada.

    E aí ele deu um exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente.
    É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping). Em vez de simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e tratar da sua vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta do seu dia.

    Eu acho que esta história de dois carros alinhados, impedindo a
    abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de
    algumas pessoas melhor, e de outras, pior(...)

    O que não falta neste mundo é gente que se acha o último biscoito do pacote. Que "audácia" contrariá-los! São aqueles que nunca ouviram falar em saídas de emergência: fincam o pé, compram briga e não deixam barato.

    Alguém aí falou em complexo de perseguição? Justamente.
    O mundo versus eles.

    Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também.
    É incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema
    solúvel. E como esse, a maioria dos nossos problemões podem ser
    resolvidos assim, rapidinho.
    Basta um telefonema, um e-mail, um pedido de desculpas, um deixar barato.

    Eu ando deixando de graça... Pra ser sincero, vinte e quatro
    horas têm sido pouco prá tudo o que eu tenho que fazer, então não vou
    perder ainda mais tempo ficando mal-humorado.

    Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e
    gente idem; pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então eu uso a
    "porta do lado" e vou tratar do que é importante de fato.

    Eis a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do
    bom humor, a razão por que parece que tão pouca coisa na vida dos outros
    dá errado.

    Quando os desacertos da vida ameaçarem o seu bom humor, não
    estrague o seu dia (...)

    A "Porta do lado" pode ser uma boa entrada ou uma boa saída."

    Ao reler o texto para te trazer, notei que a parte de Dr Drauzio é da teoria da porta do lado, essa reflexão não sei de quem foi, mas uso como manual :)

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    1. Tina, quantas vezes passei por essa situação dos dez centavos... Acredito que todo consumidor precise ter uma postura diante daquilo que ele representa. Muitas vezes essa postura é realmente não se manifestar.

      Adorei a citação que deixou aqui, serviu como uma ajuda. Eu já usei a porta do lado algumas vezes e sem dúvida nenhuma, foi o melhor a fazer naquelas situações.

      Muito bom!

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  3. Tudo isso narrado por você, e muito bem, nós, os consumidores passamos quase todos os dias; é uma sina! Arruma aqui, a bandalha aparece ali... O melhor é como você resolveu fazer: deixar passar e não se estressar. Mas muitos órgãos nos incentivam a buscar nossos 'direitos'. Sim, concordo, mas nem tudo deve ser assim. Temos de pesar o que realmente vale a pena. Muitos dissabores podem ser evitados e nossa saúde agradecerá. E o caso do segurança, sim, é muito desagradável... Deveriam ser menos ostensivos.

    Ótimo texto, Fellipe!
    Beijo.

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    1. É dessa maneira que podemos evitar grandes dores de cabeça, não? Nem sempre estaremos preparados para enfrentar certos tipos de situações. O melhor é sempre ponderar.

      Muito obrigado pela visita, amiga.
      Beijos

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  4. É, amigo, esbarramos em tudo isso e na falta de educação do brasileiro em geral, que adora fular fila, passar pelo acostamento, te interromper durante uma conversa para perguntar algo "rapidinho". Somos alvos de cara feia, desconfianças. Haja autocontrole. Mas, na medida certa, temos, sim, de reclamar. Vc fez certíssimo!

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    1. É a reclamação que gera mudanças, não é, Rovênia? Se ela ficar bem alocada, não devemos dispensar!

      Obrigado pela visita!

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  5. Oi Amigo,
    Eu já sou meio esquentada, não com palavras, mas com ações. No meu emprego já ganhei 2 ações por incompetência de funcionários mais graduados do que eu: conclusão: Com os dois processos redeu-me mais de 100 mil( danos morais). Por isso que é bom ser funcionário público. Já aconteceu em lojas, eu só compro a vista e às vezes parcelo quando fica muito caro. Só que guardo tudo. Muitas lojas já quebrei o pau e não paguei uma geladeira porque estava com defeito. Quando disse que não iria pagar enquanto não trocassem a peça, o dono da loja disse que iria colocar meu nome no Serasa. Sabe o que lhe respondi: Eu só pago a geladeira quando estiver perfeita e o Sr. não pode colocar meu nome no Serasa, pois não pode provar que lhe devo alguma coisa. Cadê a nota fiscal? No outro dia tudo deu certo, Todos me respeitam na cidade, apesar de ser pequena têm os espertinhos que eu tiro de letra.kkk
    Vá dar uma olhada na minha postagem, é bem crítica, hoje não coloquei poesia.

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    1. Dorli, existem situações que precisam ser colocadas num corredor mais estreito para que sejam de fato resolvidas. Tratam-se de problemas de natureza preocupante, que não dispensam um bom questionamento. Fez muito certo com esse vendedor! Quis ser esperto, mas acabou como o bobo!

      Estou passando por lá hoje.

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  6. Luís Fellipe, eu faço sim valer meus direitos. Sou bem chatinha, daquelas de pedir pra chamar o gerente!
    Quanto aos centavos de troco, um, dois não faço questão, mas às vezes também arredondo a meu favor por já ter deixado o suficiente pro caixa!
    Também já ouvi o mesmo do entregador de revista. Complô ou verdade?
    Um dia saberemos!
    Beijo

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    1. Já solicitei o gerente pra pechinchar e pra reclamar também. Acho válido usar nas duas situações! rs

      Quanto a revista, fiquei confuso com essa situação. Se saiu mesmo do bolso dele é porque ele, funcionário, atrasou a entrega e não a empresa em si.

      Obrigado pela visita!
      Beijo

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  7. Olá! Seus assuntos são sempre de interesse público, adoro isso!
    Assim como você, não faço o tipo 'barraqueira', evito ao máximo o estresse garantido. Mas esse máximo tem limite, quando excede vou à luta rsrsrs
    Meus maiores problemas até hoje foram com as empresas de telefonia... em todas as cidades onde morei - e foram tantas! - tive problemas com isso, acredita?! Parece perseguição...
    Quanto ao mau atendimento em certos locais, é fato. Por que é tão difícil o atendente equilibrado, que não fica te obrigando a engolir o produto, de tanto que empurra, mas também não atende com aquela cara de nojo, como se fosse culpa da gente - consumidor - as broncas que vive levando do chefe!!!
    Ainda assim, aposto na boa educação - pelo menos na minha! E tento resolver as coisas diplomaticamente.

    Gostei, como sempre! Um abraço.

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  8. Luís, você está certíssimo em reclamar. Quando se trata de passarem a gente para trás, as pessoas não pensam duas vezes rs...
    Eu já passei por situações semelhantes e em muitas dela acabei engolindo o sapo e ficando com cara de "idiota" mesmo. Mas no final nesses casos, até valeu a pena para que eu pudesse dormir tranquila no final do dia.

    Esse seu texto me lembrou sobre uma sorveteria que frequentei com meu namorado no final do ano passado. A sorveteria é "pop" na cidade e como era verão estava fervilhando de pessoas (sabe como é cidade de interior né?). Se existe coisa que me deixa indignada é chegar num estabelecimento antes de alguma pessoa e ser atendida depois. Mas até aí tudo bem, afinal estava fervilhando de gente. O pior aconteceu depois que meu namorado e eu terminamos o lanche e o suco dele ainda não havia sido entregue. Ele foi reclamar, lógico. O problema era que o suco que não veio já havia sido pago. Porém não devolveram o dinheiro. Ao contrário de sua pessoa, nunca mais colocamos o pé lá, afinal a concorrência está grande e para lidar com o público é preciso coragem e educação, caso contrário perde freguesia mesmo.
    Eu não sei você, mas eu sou o tipo de pessoa que tem certa "sorte" com essas histórias. Detesto chegar sorrindo e a pessoa responder com uma cara de bunda, por exemplo..E é o que mais existe por aí, infelizmente....

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Obrigado!




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