sábado, 20 de julho de 2013

E se as portas falassem?


Fonte (Adaptada)



Certamente a do meu quarto daria conselhos ácidos. Não parece ser tão sentimental, até porque no dia em que foi colocada, levou um tombo. Eu estava por perto. Até rimos com a situação. É bem capaz de ela ter ficado constrangida e ignorado qualquer sentimento desde então...
A menos que houvesse um lance entre ela e a porta da frente. Ou a do lado. Quem sabe aconteceria uma disputa e no final ela pisaria nas duas. É bem a cara dela. É bonitinha, bem trabalhada, mas adoraria se gabar... Nessas horas eu mostraria a ela uma foto daquelas portas duplas, cheias de detalhes (a porta mais simples da mansão de um bilionário) e certamente ela abaixaria a bola. Coitada!
Não seria, porém, tão má quanto paredes com ouvidos. Apenas deixaria o sentimento mais escondidinho ali no fundo do coração (Ih, estou falando de coração de portas...). No fundo, eu saberia que ela odeia quando viajamos por três dias e deixamos a casa nas escuras e no silêncio. E mais: a possibilidade de ser arrombada por um ladrão também a assustaria, mesmo se gabando pela sua força o tempo todo.
Depois de muitos anos, ela seria aquela velha companheira ao meu lado por vários momentos. Mesmo tendo sido chata, ácida, dramática, ignorante, estaríamos em um patamar diferente. Nas minhas conquistas, brindaríamos um champanhe, que eu apoiaria na sua maçaneta. Ela lançaria meia dúzia de palavras criticando meu corte de cabelo novo, mas no final diria:
- É difícil dizer isso, mas você está de parabéns pelas suas conquistas.
Quando eu fosse abraçá-la, ela gritaria um “para” e faria seu draminha de porta-sem-sentimentos. Típico. Mas sentiria muito a minha falta numa possível mudança. Despedidas seriam sempre melodramáticas para ela, então se recusaria a dizer adeus com abraços. Mas sentiria minha falta, sem dúvidas.
Não sou amigo da minha porta e muito menos falo com ela. Mas o que fica disso tudo é que as amizades não são perfeitas.  São construídas de pedaços. De momentos. De brigas e sorrisos. De fracassos e conquistas. E no final, haverá sempre o sentimento. Se for uma amizade verdadeira, você saberá disso.
Ah, como seria engraçado se as portas falassem...

Luís Fellipe Alves

7 comentários:

  1. Rsrsrsrs Seria engraçado se as portas falassem! Quantas coisas viram e ouviram e, em nosso favor, silenciaram. Quando sofremos uma decepção e corremos para cima da cama chorar nossas mágoas, por exemplo, elas impediram o constrangimento de nossa dor ser levada a público! Bem, é claro que aqui estou falando de uma porta feminina... rsrsrs Se bem que, se as portas falassem, acho que descobriríamos que os homens também choram...
    Amigo, entrei na sua brincadeira e fiquei pensando nos segredos das portas. Nos momentos que entramos num rompante, ignorando a companheira ali presente, quase a derrubamos com nosso impulso... Não é assim com as amizades? Não somos perfeitos, as amizades também são feitas de arrependimento, de desculpas e de perdão. De momentos lindos e de outros que precisam ser reconstruídos. Gostei de ver sob essa perspectiva, Luís Fellipe!
    Um Feliz Dia do Amigo para ti, e aquele abraço!!!

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    1. Muito bem pontuado! Foram e são um auxílio para tantos momentos, mesmo não podendo falar. Se pudessem, seria mesmo engraçado! Além de terem voz, teriam personalidade (como a minha que adoraria uma ironia e um veneno de vez em sempre). Homens choram sim, só não entendo porque alguns não se sentem confortáveis em admitir.
      É exatamente como funcionam as amizades... E estar disposto a lutar por ela é sempre muito válido. Erros vêm para futuros acertos! É uma perspectiva muito boa.

      Feliz dia do amigo, grande abraço!

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  2. Realmente. Seria divertido Luis. Mas não sei se seria tanto quanto o texto que acabo de ler.

    Gostei demais de sua reflexão.
    Meu abraço!

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    1. haha fico feliz que tenha gostado, Vanessa! Imagina só uma porta com essas características? rs

      Abraço!

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  3. O que mais chamou minha atenção foi de você ter usado uma porta, dar asas à sua imaginação, e com muita criatividade dizer verdades absolutas. Um amigo não assistiria tanto de nós mesmos. Nem ouviria. Jamais nos abriríamos tanto com ele. Apenas nossas portas ouviriam e silenciariam. Por isso, a partir de hoje tratarei minhas portas com mais carinho!!
    Lembrei de uma citação de Quintana:
    'Não te abras com teu amigo
    Que ele um outro amigo tem
    E o amigo do teu amigo
    Possui amigos também...'

    Entendeu? Por isso ficarei com as portas...rsr
    Adorei, você tá ficando demais...
    Beijo.

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    1. As portas podem ser muito importantes nesse quesito. Sem voz, são ótimas amigas! rs Talvez falantes também fossem. Mas sabe como é, uma porta como a minha me chantagearia com algum dos meus segredos... Às vezes é bom guardar um segredo tão bem guardado. Só precisa saber se não há mais nada atrás da porta...
      Belíssima citação do Quintana, entendi perfeitamente. Segredos que caem na magia do exponencial. Terrível! rsrs
      Muito obrigado, viu?
      Beijo

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  4. Se as que conviveram comigo falassem, berrariam ou chorariam as mais sensíveis, sou batedora oficial e declara de portas (desde a infância, até hoje, afinal, adultos também são malcriados).
    Bater portas é um descarregamento de energias incontidas que deveria ser recomendado como terapia.

    Ainda tem um pormenor, quebro nozes nas portas, além de meu pai e meu marido e a tinta da parede não gostarem, elas, as portas, tb não devem gostar, as dobradiças é que devem se por a rir pois nunca penso que são fortes e as nozes nelas centralizar ser uma boa ideia, deve ser porque dobradiças para mim são objetos encantados, sempre as imaginando voando como borboletas.
    "Sim, eu sei. Pode parecer maluquice, mas eu vou mesmo desparafusá-las e arremessá-las no jardim.
    Mesmo que elas não possam voar, ficarão entre as flores, o devido lugar de borboletas paralíticas.
    Não suporto mais essa idéia de abrir a janela, levantar os vidros e vê-las ali, disfarçadas de dobradiças."
    Rita Apoena

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