quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Café obsoleto




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Não sou exatamente um fã de café. Mas tenho que concordar que os cafés tradicionais são muito melhores do que os de cafeteiras. Não sei o motivo, nem me venham pedir argumentos. Não os tenho. O que carrego comigo é a tradição. Talvez por ter passado grande parte das manhãs com meus avós durante a minha infância.
No dia em que faltou achocolatado, fui experimentar o tal pingado. Mas o pinguinho de café era muito pouco. Resolvi transformar em café com leite mesmo. Adorei e aderi. Era a mais prazerosa rotina colocar o café, o leite, fazer o pão com manteiga de leite e assistir desenho.
A vida hodierna cobra comodidade e agilidade. E a triste tendência é que substituamos tudo o que for um pouco mais trabalhoso. Criamos a necessidade de aproveitar o tempo. Time is Money! Comemos em pé, usamos bips, agendas eletrônicas, cafeteiras, lavadoras automáticas de louça. O controle remoto, algo tão mais cômodo do que os arcaicos botões das tevês de tubo, está com os dias contados. O caminho agora é focar na interação do usuário com o aparelho. As ações serão controladas com o corpo, muito mais interatividade. É o fim da procura exaustiva pelo controle remoto que se esconde nos espaços do sofá.
Não discordo que a tecnologia seja benéfica. É claro que é. Mas os benefícios não contemplam tudo. Ter uma lavadora/secadora/robô é uma maravilha pra mulheres e homens modernos. Uma cafeteira, também, um micro-ondas, também. E por aí vai. Mas à medida que nós consentimos com o desuso de certas coisas, estamos assinando um termo que acelera o ciclo tecnológico: o empresário percebe o ciente do mercado consumidor, produz mais. Criamos a necessidade de trocar, atualizar, ter o novo. Há um consequente maior acúmulo de resíduos descartados. Os produtos novos têm a qualidade inferiorizada gradualmente, para uma obtenção maior de lucratividade. No fim, perdeu-se a tradição, o dinheiro e a consciência ambiental.
Pra mim, não é só a marca do café que influi na qualidade. O tradicionalismo também pode colaborar. E passam a existir dois tipos de café: aqueles da vida hodierna, feitos pela máquina e engolidos nos cinco minutinhos de correria e aquele minuciosamente calculado, coado e adoçado por alguém que não se divorcia da bonita tradição. 
 Luís Fellipe Alves

8 comentários:

  1. Passo sem almoçar mas não passo sem tomar café. Sou cafezeira de carteirinha, sempre tomei coados no coador de pano, na casa de minha mãe, mas adotei a cafeteira elétrica para o uso em minha casa.

    Detalhes:
    - Não gosto de café dormido, nem requentado, nem em coador mau seco;
    - Vamos viajar? Quem leva cafeteira ou coador? Na dúvida e por precaução, levo Nescafé (que gosto dessa marca e de algumas outras)
    - Sair a noite. Tomo café nem que seja para ir a uma churrascaria.
    - Quem anda comigo já sabe, de bar a boate, vai chegando uma hora que começo a ver no cardápio se tem café.
    - Quase sempre ao chegar em casa, de tempos atrás até hoje, seja a hora que for, o cheiro do café invade acasa e marido me acompanha sorrindo.


    Gosto de café expresso, de café com leite, com creme, de shakes com café e de todo um contexto que envolve os golinhos e deguste, as xícaras, em copo de padaria tb adoro, os copos de isopor americanos e super térmicos e resistentes, o pãozinho na chapa que acompanha, ou fresquinho com manteiga de pé na padaria, me controlando para não enfiar o pão no copo, molhando biscoitos maisena, maria, de leite e cream cracker dentro ou colocando-as em pedaços mergulhadas como uma sopinha e comendo de colher, tomando o que ficar com cuidado para não engasgar com as migalhas...
    Com bolo, com torradas, com cuscuz, com açúcar, pouco e sem nenhum também vai, mas com muito açúcar nunca.
    Vai com companhia, vá só, vai rabiscando algo no guardanapo, vai com desenhinhos feitos na espuma, mas nada mecânico demais, com pressa, com senso de urgência, para onde vamos todos, chegamos cedo :)

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  2. Tenho uma sugestão: pegue uma lista de cafeterias da sua cidade e escolha uma para visitar. Leve um livro, algum joguinho de paciência ou algo semelhante. Desligue o celular e não olhe para o relógio. E vá experimentando um café a cada visita. Você vai descobrir que a sua língua revela sabores inusitados a cada novo experimento. E obrigado pela palavra hodierna. Não conhecia e vou usar.

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  3. Essa imagem bem poderia ser do café aqui de casa. Feito na tradição e já várias vezes comentado que até consegui convencer uma certa menina baiana a provar o ouro negro coado em pano!
    Teus avós adoçaram o teu paladar, com o café e seu aroma despertaram, aguçaram a sensibilidade, o olhar...

    Excelente sim os tempos modernos e suas máquinas. Lamentável que toda a modernidade tenha se divorciado do Planeta. As máquinas são feitas para durar pouco e outras tantas são atropeladas pela própria atualização dela mesma acrescendo-se algumas letras tipo S ou C...
    E aí lixo. Porque estão tão ocupados em novos visuais, novas funcionalidades que se esquecem de criar, de divulgar sobre o descarte consciente.
    Mas, vamos finalizar com um café! Bj

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  4. [concordo e penso...preciso sair. preciso escapar dos reflexos condicionados]

    um beij0

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  5. Estou gostando cada vez mais dos teus textos... me identifiquei agora, tanto que nem tenho nada a acrescentar neste comentário, para mim tu disse tudo de uma maneira simples e eficaz, usando um exemplo tão comum e do cotidiano como um simples café. Ótima análise!

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  6. É aquilo que se diz por aí: "Nada melhor do que um bom e simples cafezinho." Texto delicioso, Fellipe, como cafezinho passado na hora e o prazer de receber amigos. :) Feliz fim de semana!

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  7. Perfeito seu texto, Fellipe. Li, também, sobre o controle remoto... Comandaremos pelo corpo. Que horror, não me imagino. Só falta acabarem, de vez, com os teclados e ficar tudo no horrendo toque de tela. As invenções tecnológicas nos tiram o prazer já adquirido. Também li sobre o comando da televisão por voz. Que vai ser uma gritaria, ah vai!
    Belo texto, teria muito a comentar, mas não quero me estender. E quanto ao café... não bebo nem amarrada! Infelizmente não suporto café! Não acompanho ninguém, peço um suco!rsss.

    Beijos!

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  8. Caro Luís Fellipe, divergindo de todos aqui, não tomo café de nenhum tipo. Mas isso são gostos e princípios pessoais, comentarei o texto que fez um apelo fantástico para o tradicional, justamente em época de Semana Farroupilha aqui para nós, gaúchos, adeptos do estranho chimarrão - estranho para quem o desconhece. Devido à força da tradição para nós, gaúchos, entendo perfeitamente bem seu laço com o café tradicional, da casa da vovó. Lamento muito essa correria atrás da tecnologia que nos faz, como você mencionou, fazer as refeições em pé, pois não podemos perder nenhum o 'novo', que vem no próximo minuto, temos que estar alerta, sempre alerta. Criamos essa necessidade, infelizmente, e estamos deixando o simples e o singelo para trás. Não paramos para analisar se o 'novo' realmente nos satisfaz ou se estamos aderindo apenas pela força da correnteza.
    Grande texto, mais uma vez, de um grande homem, de ideias muito claras e louváveis convicções. Um abraço!

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Obrigado!




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