quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Quem você julgou hoje?

 
Fonte

Para um mundo que desacredita na existência da perfeição, as pessoas muito têm julgado umas às outras sem autenticar os próprios defeitos. Andamos tão acostumados a fazê-lo, que mais parece genético do que comportamental. É diário, se tornou comum, está entranhado em escala mundial. A indústria mais velha do mundo é a indústria de fôrmas humanas, que nós usamos para encaixar pessoa por pessoa, a nosso modo, a nossa receita, aos nossos terríveis padrões.
Foi conferindo o Facebook que me dispus a escrever sobre o assunto. Vi por lá uma frase interrogativa, cujas exatas palavras não me lembro, mas que questionava o porquê de as pessoas julgarem umas as outras pela aparência. Até aí, tudo bem. Mas o mesmo cidadão que publicou essas palavras é um projeto de narcisista. Publica fotos próprias diariamente e recebe dezenas (quando não centenas) de ‘likes’ a cada nova imagem. Me responda você, caro amigo, por que as pessoas julgam as outras pela aparência?
Nosso próprio umbigo é desinteressante. Muito mais prazeroso cuidar da vida alheia, imaginar o que se passa na casa de fulano, o que ele faz aos finais de semana,  porque ele troca de carro semestralmente, deve ser rico, deve ter bom emprego, deve explorar funcionário, deve ser, deve ser... Deve. É reconfortante pra certo tipo de pessoa descobrir um defeito alheio para eufemizar os próprios. Tem tatuagem, é marginal. Tem piercing, é esquisito. Usa óculos, é nerd. Gordinho tem que ser magro, magro tem que ganhar músculo, falta de glúteo e seio é um crime, olho azul e verde é o que salva. Poucos exemplos dos zilhares que poderiam ser citados. 
Se você experimentar ir vestido da forma mais simples possível a um shopping destinado às classes A e B, terá uma grande prova do que são as pessoas. Você será fitado de todos os cantos, pelos clientes, pelas crianças, pelos seguranças. Numa loja de grife, duvido muito que seja bem atendido. Se for! E isso tudo graças ao que sua roupa transparece às pessoas. Você não se encaixa ao público daquele lugar. Porque o público daquele lugar é fino. E fineza, pra essas pessoas, é usar e abusar das grifes, do dinheiro, do luxo. É uma ostentação doentia. Agora, se você experimentar sacar um supercartão de crédito do bolso, as pessoas entenderão que você é um ricasso humilde. Ou seja, você não vai fugir do julgamento. Só talvez seja mais bem atendido.
Se há alguma dificuldade em enxergar as consequências dessas pressuposições, desse preconceito, é bom frisar acontecimentos como o Holocausto. Alienação foi o que matou milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial. O critério utilizado foi segregar o que se julgava como raça superior (arianos) das demais pessoas: judeus, ciganos, homossexuais, opositores políticos, testemunhas de Jeová. E se ainda não ficou claro o que tem o Holocausto com o ato de julgar e selecionar pessoas, é bom lembrar que o objetivo nazista era padronizar, separar, homogeneizar a população ariana através de critérios pré-estabelecidos.
Não há quem nunca tenha julgado. Não há. Mas existem pessoas que trabalham o caráter a fim de eliminar esse costume. Há gente disposta a mudar ou que já tenha mudado. Uma hora ou outra estamos propensos a deslizar, cometer erros, sem mesmo ver. Mas por que não adotar como dever a nossa humanização em prol das mudanças desse costume?
Nas ruas, nas escolas, nos trabalhos, o que a gente percebe é um grande clã de olhos-máquinas. Por que um cabelo verde fluorescente não passa despercebido? Por que uma pessoa supertatuada não passa despercebida? Porque não faz parte do catálogo de normalidade da maioria da sociedade.
E querem saber? Que continue existindo os cabelos coloridos, as tatuagens, os óculos grandes, os brincos, as personalidades diversas, as roupas longas e curtas, os piercings, tudo. Que toda essa diferença seja ainda mais acentuada. Peguem os catálogos, as fôrmas, o preconceito e joguem num museu. Embaixo, colocaremos uma plaquinha avisando para as crianças do futuro: “Um exemplo a NUNCA ser seguido.”. Posso não estar vivo pra ver. Mas é um sonho, mesmo que póstumo. 
"Uma das mais belas lições que tenho aprendido com o sofrimento: Não julgar, definitivamente não julgar a quem quer que seja." 
                                                               - Chico Xavier


Luís Fellipe Alves

10 comentários:

  1. oiii Luís

    Acho que não acabe ninguém a julgar ninguém,embora façamos sempre.
    Vem naturalmente, qdo deparemos estamos falando algo de alguém. Mas a vida me ensinou que cada um tem uma história, e se as pessoas agem como agem tudo tem haver com suas vivências.
    Tem gente que para ser aceita, força demais nas roupas, na maquiagem, na pose,nos comentários, nas mentiras enfim em tudo.
    E não adianta a gente se esforçar pra ser aceita porque a aceitação nunca será 100%
    Hj se eu acho que uma pessoa não presta, guardo pra mim é minha opinião, e se não for para mudar o mundo eu fico calada.
    Já fui muito julgada por coisas que não fiz (isso é injustiçada), mas no fundo eu sei quem eu sou e Deus tb, e quem me conhece um pouquinho que seja sabe tb.
    Passou, hj o que eu quero é jogar ás mágoas pra bem longe, pq não acrescentam em nada.
    Adorei a postagem é auto reflexiva!!!

    tenha um ótimo feriado =)

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  2. Oi Luís Fellipe,excelente postagem...hoje em dia o que mais se vê por aí é isso, as pessoas julgam tanto umas as outras e não percebem que tempo precioso estão perdendo com isso, eu sempre costumo dizer: Julgar Menos e Amar Mais!

    Grande Abraço
    Estrela,Flores...Melancia

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  3. Luís Fellipe, eu adoro ler seus textos! Sempre trazem um convite para a reflexão e, como consequência desse pensar, para a mudança.

    Gostei particularmente do assunto aqui abordado. Não há problema em termos princípios, padrões firmemente estabelecidos. Eu os tenho, pauto minha vida por eles, são como uma base sólida sobre a qual construo minhas demais edificações: família, carreira, vida social, etc. Até aí, tudo perfeito. O problema surge quando avanço dos meus padrões para o do meu próximo, deixando de respeitar seu livre arbítrio para viver como bem entender, ditando-lhe as minhas regras, julgando conforme o meu modelo de viver. Não tenho esse direito! Não cabe a mim julgar as escolhas dos outros, e muito menos comentar aos cochichos, gerando fofoca e difamação de uma pessoa com base na minha imparcial versão dos fatos! Considero esse um defeito terrível no ser humano. Fico irritadíssima quando alguém me chama para fofocar da vida alheia, fecho a cara, corto o assunto na hora. Prefiro a fama de antissocial do que ser associada aos 'faladores', a reclusão pode ser inofensiva enquanto que o julgamento é invariavelmente destrutivo.

    Você escrever maravilhosamente bem e demonstra uma capacidade de aceitação de seu próximo, do jeito que ele é, que me encanta. Que bom se pudéssemos todos viver assim, respeitando, convivendo em paz com as diferenças! Parabéns pelo recado tão bem dado nesta sua crônica, adorei!

    Encerro deixando um abraço, prolongado como nosso final de semana :)

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  4. Muito obrigado Bell, Kaka e Suzy pelos comentários! Vocês entenderam perfeitamente aonde eu queria chegar. É horrível ser julgado assim como é horrível julgar. O importante é que aprendamos a sair desse círculo que não tem serventia alguma a não ser machucar outras pessoas ou a si mesmo, também.
    Suzy, adorei o ponto em que chegou: vivemos com aquilo que escolhemos, mas não temos o direito de querer encaixar tudo e todos naquele nosso padrão. Perfeito! Até comentei bastante sobre tatuagens, por exemplo. Eu mesmo não sinto vontade de me tatuar. Mas não é por isso que vou dizer pro mundo que ninguém deva. E isso vale pros outros inúmeros exemplos. Agradeço muito pelos elogios, isso me ajuda a ter um rumo sobre tudo o que escrevo. Muito obrigado mesmo!

    Ótimo final de semana a todas, abração! :)

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  5. Pois é, é um tal de julgar, tachar, receitar, passar recibo. Se vc faz isso é isso, se não faz é aquilo e tá ficando mais congênita a coisa. Algo do tipo não ser mais normal não ter tatuagem, surreal não ter face ou whats app.
    Não bebe? - Como não?
    Calado(a) d+ - Depressivo(a)
    Falante e animado(a) - De Hiperativo(a) a drogado(a)
    Escreve poemas - Alternativo(a), Romântico(a) e idealista
    * Leia-se essas características como defeitos :(

    E por ai lá vai e nessa boiada vamos tentando não julgar e não sermos julgados.

    Tarefa difícil, batalha dura!
    E o que mais me indigna é que para julgar todo mundo aponta o dedo, argumenta, mas para se mover em direção a ajudar alguém, a fazer alguma critica construtiva acompanhada e ação, a ter uma visão macro das coisas é um ser em um milhão.

    Exemplo pop do momento:
    Justin um menino novo, um cantor e instrumentista pois ele toca vários instrumentos, querido, idolatrado, acompanhado por uma equipe de pessoas, pela família...De repente a maioridade, os maus comportamentos, praticas que atentam contra ele e contra os outros e nada além de matérias, comentários e juízos. Ninguém com uma luz, um movimento, uma grito bandeira de alerta, de ajuda, de perguntas e respostas de mudar o rumo em prol dele como pessoa e dele como formador de opinião, simbolo e ídolo de um ageração???
    Cadê as pessoas que trabalhavam com ele, os pais, os fãs que o querem bem, estão assistindo passivamente ou nos bastidores, bota acra, critica para o bem, sai da passividade ou da fila de quem ta julgando e compartilhando o circo de horrores.
    Lamentável! triste e não pop e revolucionário devia ser o tom dado a sucessão de notícias. E tenho dito!

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    Respostas
    1. Meu registro e pedido de perdão pelos erros de digitação que quase escrevo datilográficos (atestado de velhice)
      Pressa na digitação e falha pela não releitura
      Excuse!

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    2. Sem preocupação com isso! Velhice que nada, gente da Bahia não envelhece, rejuvenesce (O que é que a baiana tem? Espírito jovem, pra sempre tem!)

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  6. " A primeira impressão é a que fica."
    Um ditado antigo que tentamos mostrar o contrário.
    Beijos!!

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  7. Oi Luís. Sempre me questionei o por que dos julgamentos. Acho algo tão cruel. E somos julgados o tempo todo. Eu sempre fui aquela pessoa que tenta não julgar, pois me incomoda muito essas fôrmas e muitos que têm o prazer de fazê-lo. Ótimo texto. E é sempre bom estar aqui. Um abraço Luís

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  8. Amigo Luís, é assim mesmo, ainda teremos de conviver com o preconceito, ninguém escapa, o tempo passa e percebemos que aumenta cada vez mais, sempre sentimos ou percebemos algo, nem todos demonstram, ou melhor, por educação até disfarçam, acho que há um certo respeito nisso, enfim é assim!
    Gostei de ler por aqui, bom texto para refletir!
    Abraços apertados!

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