quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Adocicada mente




A família de Virgília morava em um edifício. Estavam todos na mesa do café – menos o bule. Virgília, impaciente. O marido, sempre calmo, lendo os resultados do clássico dos campos do domingo passado. A filha, adolescente, beliscava os biscoitos e mexia o chocolate no leite. Beline, a empregada, na cozinha, procurava pelo bendito açúcar que ela jurava ter comprado. Só tinha um restinho no pote. Se arriscasse fazer um café amargo, dona Virgília dava um treco, como da última vez. Por outro lado, se dona Virgília descobre que ela se esqueceu de comprar o açúcar... Sai de perto.
Beline, em passos cuidadosos, tentou sair para pedir um pouco de açúcar no apartamento vizinho. Mas...
- Aonde pensa que vai, Beline? Cadê o café, minha filha? Tô seis minutos atrasada!
- Dona Virgília, é que...
- Não vai me dizer que...
- Sim...
- Quantas vezes já te falei pra conferir a lista de compras?!
O marido interveio.
- Virgília, precisa desse escândalo todo? Beline é um ser humano e seres humanos esquecem das coisas!
- Oras, Barthes, vai defender agora? Vai me dizer que você não está atrasado?
- Estou! Mas nem por isso fico dando esses escandalozinhos logo pela manhã por causa de um pouco de açúcar.
- Barthes, ela estava indo pedir na vi-zi-nha!
- E qual o problema nisso?
- Como qual o problema? Todos, meu querido. Todos! Você se esqueceu de que eu sou a síndica disso aqui? Vão achar o que de mim? “Pobre coitada da Virgília, pedindo açúcar no vizinho... Não cuida nem da própria lista de compras, quem dirá do edifício!”
- Exagero, Virgília. Eu mesmo já pedi várias vezes no  510.
- O quê?
-  Açúcar, 510, apartamento do Marcão e da Helena...
- Você ficou maluco? Isso é inadmissível! Você sabe que a Helena me odeia! Eu tenho mais de mil argumentos contra sua conduta, Bart querido, mas estou atrasada. Vou retocar meu batom e partir, tomo um café na rua. E aproveito para marcar uma consulta na psicóloga, estou traumatizada.
- Mãe, pra quê essa neura? Quando vocês viajaram, pedi açúcar pra mãe do Arthur. Fiz um bolo e ainda levei um pedaço pra eles depois como agradecimento.
Virgília respirou fundo e pôs a mão na cadeira mais próxima.
- Sabe o que eu deveria fazer com sua mesada, querida? Eu deveria queimar tudo em açúcar! Cristal, refinado, mascavo! Quem sabe umas mudas de cana pra plantar no meio da sala? Bem rústico, não é? Hoje eu não levantei com o pé errado. Eu devo ter enfiado a perna inteira dentro de um buraco no carpete. Meu Deus!
Saiu para o trabalho, desacreditada.
Quando voltou, ninguém estava em casa. Beline havia ido ao dentista. Seria somente ela e um cafezinho com... Será que ela comprou o açúcar?
Vasculhou tudo. Nem um grão.
Estava desesperada. Tinha passado um dia muito cheio, merecia um cafezinho, os pés pra cima e uma leitura relaxante. Mas não funcionaria se faltasse uma dessas coisas. Para os pés, bastava tirar os sapatos e se aconchegar no lugar de sempre. O livro, sempre à mesa de centro. Mas o bendito café não ia sair! Não queria nem morta andar quatro quarteirões para buscar um café e voltar com ele frio. Não iria dirigir até o mercado para buscar um único saco de açúcar e passar vinte minutos na fila escutando o pessoal fofocar a vida alheia. E agora?
Virgília se rendeu.
Foi até o apartamento da vizinha, pediu uma xícara de açúcar e fez o café daquela tarde. Relaxou, leu, cochilou.
E na próxima vez que faltou o açúcar, já pediu logo o café de uma vez. Quem sabe um pedaço de bolo, a fatia de uma torta, o mamão partido. A nova vizinha era viúva mesmo, morava sozinha e fazia uma despesa muito maior do que o apetite dela. Foi mais cômodo. Não precisava argumentar, não precisava se mover muito. Vendeu a sua autenticidade (e teimosia) por uma xícara de açúcar. Sem arrependimentos. 
Luís Fellipe Alves

11 comentários:

  1. Você ganha uma xícara de açúcar se responder à pergunta: o que um rapaz que ama as palavras e escreve tão bem vai fazer na Engenharia de Produção?? Produzir cronicas, textos que retratam o nosso cotidiano tão bem? Voltar à terra natal é doce e tem o carinho de um colo de mãe.

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  2. Deliciosamente doce esta crônica!
    Ah como sinto falta de um vizinho que me peça um ovo ou uma xícara de açúcar...
    Por aqui vizinhos perderam dessa gentileza, um pratinho feito com o açúcar emprestado para retribuir. Sinto falta.
    Sabe onde encontrei vizinhos que me trazem e também levam pão de queijo, pé de moças? Aqui, na vizinhança dos blogs!
    Beijo!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. AMEI desde o nome, passando por pedir açúcar aos vizinhos (tanto já fiz isso), pelo ir e vir de vasilhas cheias, pelo alertar para o stress desnecessário em que se vive e culto a individualidade, parando e sentando no comentário de Ana, pés de moças, leiteiras (que também renderão post por lá), sucos de maracujá imaginários com bolinhos de chuva tão sonhados.

    PS:
    Refletindo que um certo cronista pop, que lançou ao vento, sementes, louças, simplicidade, coparticipação, escrita tão lindamente e ricamente germinadas, fique a margem.
    Será falta de tempo?
    Não compartilha seu açúcar?
    Tem receio de doce dado pelos vizinhos, como tem quem tenha dos docinhos de Damião e Cosminho?
    Para não ficar travando em mim e não grudar que nem noda de caju, vou levar seu post até ele.

    Quem sabe ele se delicie e venha para um café, passando na vizinha Ana para um chá gris.

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  5. Como as pessoas se preocupam com o que o outro vai achar né?
    Querem manter o status até na hora do aperto.
    Nunca pedi emprestado açúcar, mas já precisei da ajuda de um vizinho em um momento de apuros.
    Antigamente tudo isso era muito comum, hj em dia cada um vive no seu casulo, por vezes nem sabemos quem são as pessoas que moram do nosso lado.

    tenha um lindo dia =)

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  6. Que lindo texto, Fellipe!
    Parabéns!
    Talvez, no início, o estresse todo poderia ter sido resolvido com um chá de camomila, sem açúcar mesmo! :)

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  7. Que delícia te ler.Quem não vive ou viveu algo parecido? Adorei! abraços praianos,chica

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  8. Minha mãe é uma especie de Virgília

    :P

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  9. Olá Luiz
    As vezes fazemos o maior estardalhaço por coisas sem sentido como manter uma aparência né. Foi o que vi em seu texto. No final nada disso fazia sentido e Virginia teve que se render rs
    Grande abraço
    Blog Fernu Fala II

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  10. A gente reluta em pedir favores aos vizinhos hoje em dia, até por medo de futuras cobranças ou por medo de parecermos inoportunos - isso quando conhecemos o vizinho.
    Sempre bom vir aqui ler tuas crônicas... tu escreve muito bem. Um abraço!

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  11. "Quem sabe umas mudas de cana pra plantar no meio da sala? "
    Morri de rir.
    Adorei o texto.

    Beijos!

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Obrigado!




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