sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Com quantos trem se faz uma Minas Gerais








Minas é de uma riqueza impressionante. Não estou falando de dinheiro público que vira imposto e vira cachê de político corrupto. Estou falando da cultura, desse povo que tem história pra contar do que assistiu com os próprios olhos ou do que ouviu dos pais e avós. Sim, estou falando do pão-de-queijo mais gostoso do país e do sotaque que se define de longe. 
Mais precisamente, em Uberaba a gente nota certo ar de interiorzão numa cidade não mais tão pequena. Existem mais que trezentos mil habitantes por aqui, inúmeros carros e motos que enchem as apertadas avenidas e ruas principais. Barulho, gente por todo lado, movimento absurdo em horários de pico. Mas ainda é possível se deparar com ruas calmas, de paralelepípedos, nos bairros mais velhos e populares da cidade. Vizinhança pacata, idosos que sentam em frente suas casas e descascam mexerica ou apanham acerola do pé.
Existe um costume muito engraçado por essas bandas. Tudo por aqui é trem. Isso mesmo. “Trem” é uma variável que aceita incontáveis significados, que dependerá do contexto em que for inserida. Vamos aos exemplos.
Uma pia cheia de louça por aqui é uma pia cheia de trem. Já quando estão tentando falar de diabo, referem-se ao trem ruim. Mas trem ruim pode ser também qualquer coisa comestível com sabor desagradável, um sapato apertado ou uma sensação ruim tipo uma tonteira. Trem bão segue a lógica contrária.
Às vezes você encontra alguém com vontade de comprar aquele trem (chocolate, sapato, vestido, carro, fritadeira sem óleo Philips Walita), amassar aquele trem (papel, cartaz de político),  queimar aquele trem (pilha de folhas secas, carta de ex), lavar aquele trem (roupa de criança) com aquele trem de tirar manchas (Vanish), colocar aquele trem pra secar (tapete, toalha, colcha, lençol, dinheiro esquecido no bolso da calça) ou comer um trem diferente (sair do arroz e feijão por um dia).
Quanto aos outros costumes, digo usando de exemplo minha avó e alguns outros idosos que conheci por aqui. Contos e histórias de um tempo distante, quando maioria da população interiorana ainda estava em fazendas e os pobres moravam em casinhas simplórias dentro das terras dos patrões. Todas aquelas crenças medicinais insistentemente desmentidas pela medicina contemporânea e outras mil vezes mais valiosas que um analgésico. Ferraduras, sal grosso, e todo um sincretismo advindo dessa mistura que é o Brasil. Nada mais bonito.
            Aprecio tanto isso porque em São Paulo é algo já muito raro de se ver. Talvez mais para o interior ainda sobrevivam, mas cidades como a minha já adotaram um estilo de vida muito urbano, contemporâneo, e os costumes custam sobreviver, pois são de responsabilidade de gerações preocupadas em cuidar da difícil vida caótica. Por isso tão especial essa Uberaba (e imagino que muitas outras cidades de Minas). Lamentavelmente, essa cultura forte parece esfarelar aos poucos também por aqui.
Dia desses fui a uma palestra sobre ética de um engenheiro civil e cronista. Identificação máxima. Aquele senhor tinha, além de um currículo exemplar, uma experiência de vida maravilhosa. Imaginem uma pessoa que vai a busca de atas de uma cidade e procura próximo a maio de 1888 informações sobre a abolição da escravatura. Por curiosidade. E não acha qualquer citação sobre o assunto em plena cidade mineira que já existia em tal época! Além de ser uma criativa curiosidade, conseguiu que a câmara providenciasse um pedido de desculpas a população uberabense. Pra dar mais um tchan na palestra, ainda teve Epitáfio do Titãs para refletirmos sobre a vida.
Conhecer um lugar novo é mais do que procurar pelos problemas que se assemelham de onde se vem. É ir atrás do fresco, do desconhecido, daquilo que até então não fazia parte da rotina ou do conhecimento. Não cheguei aqui procurando por assalto, enchente, corrupção política pra saber se teria que reviver tudo outra vez. Fui à busca de tudo aquilo que seria pauta para um bom texto e para outro ângulo de história. E achei. Definitivamente não sei com quantos trem se faz esse estado. Mas posso garantir: trem bão aqui, sô!

                                                         
                                               Luís Fellipe Alves

* * * 

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7 comentários:

  1. Trem bão é também te ler. Adorei e como é bom passar pelos lugares com olhos e ouvidos atentos. Nas cidades, na palestra, a curiosidade desse palestrante, tudo te deu argumentos pra uma linda crônica! Muito bom! abração,chica

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  2. Vou repetir a Chica ecoando Êeee trem bão te ler! Saudade do tamanho de um trem daqui!

    Comecei a aprender um pouquinho sobre as Gerais com meu marido que tem os pais morando em fazenda lá em Passos.
    Minha primeira vez num churrasco lá foi surpreendente ver surgir uma bandeja enorme de pão de queijo.
    Pão de queijo num churrasco, pensei - para quê? E não é que colocam carne, linguiça dentro e eita trem bão!
    Aqui em São Paulo, pão de queijo comprado na padaria para o café da manhã ou da tarde.
    A religiosidade tão presente neles. Lá pelos lados da fazenda nem igreja tem, mas a festa do Divino não deixa de ser feita.
    Um mundo, uma riqueza, uma porção de trem essa Minas Gerais!
    Ser inspirado por um engenheiro civil e cronista é pura sincronia!
    Beijo

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  3. "Ir atrás do fresco"
    Isso é viajar, isso é um livro novo, é ir a um lugar novo, isso é o que vim fazer aqui :)

    Isso do trem mineiro é do dito que são os mineiros q tem o maior olho do mundo. Cabe um trem neles (da expressão entrou um cisco, ai um trem no olho).

    Falo ñ sei se é coisa daqui (de Salvador ou do nordeste) muito e para diversos contextos e tdas as classificações gramaticais as palavras: coisa e negócio.
    Exemplos:
    - Uma coisa de Deus é pão fresco!
    - Qualquer coisa ligue!
    - Que coisa esse calor!
    - Um negócio sério aquele menino!
    - Esse negócio ñ vai dar certo!
    - Coisa certa isso dar errado!
    - Coisinho vc viu o negócio que deixei aqui ?
    - Coisei o negócio já viu! (quase um dialeto né ? Kkkkkkkk)

    Sempre uma coisa boa te ler!
    Trem bom!
    Negócio que dá gosto!
    Vixe!

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  4. Trem em Minas é como coisar para o Paraíba. Em Minas todos vão e compram trem com uma facilidade. rsrsrr

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  5. Que belo texto, adorei ler, conheço algumas cidades de Minas, é mesmo assim, pessoas maravilhosas, costumes que, como você diz, em Sampa não se vê, moro na Capital e é correria sem fim, os vizinhos nem sequer vemos.
    Ah, adorei o "trem", rs, então também achei um trem bão te ler!
    Abraços apertados!

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  6. É muito "trem baum" que tem por Minas. Tenho uma vontade enorme de conhecer as Minas Gerais, e confesso que um certo medo de achar os "trens" por lá bons demais e ficar dividida com o meu Recife.
    Muito legal o texto Luís!

    Te mando um trem apertado ( abraço ) :D

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  7. Muito bom, Fellipe, é tudo o que penso. Também não me interesso pelo moderno, arrojado, por milhões de pessoas vivendo junto. O 'caos' vemos pela televisão! O que me interessa é o que conseguimos preservar do passado que não volta. Se tivesse que escolher entre dar uma voltinha entre Nova Iorque e Ouro preto, Parati etc, logicamente e sem pestanejar ficaria com as últimas!!

    Parabéns pelo texto!
    beijos.

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